Utama Introdução à Psicanálise Freud

Introdução à Psicanálise Freud

ISBN 13: 9788536249568
File: PDF, 6.07 MB
Unduh (pdf, 6.07 MB)
Baca buku online
 
You can write a book review and share your experiences. Other readers will always be interested in your opinion of the books you've read. Whether you've loved the book or not, if you give your honest and detailed thoughts then people will find new books that are right for them.
2

Archie (2015-) #9

Tahun: 2016
Bahasa: english
File: PDF, 15.61 MB
INTKoduc:Ão
BIbIIOIECA BÁSICA dE FILOSOFIA

1 -- OSPRE-SOCRATICOS,
JeanBrun
2 -- KANT, RaymondVancourt
3 -- PIAGET, Guy Cellerier
4 -- PLATAO, GastonMaire
5 -- A FENOMENOLOGIA,Jean-François
Lyotard
6 -- A FILOSOFIAMEDIEVAL, Edouud Jeauneau
7 - BACHELARD,FrançoisDagognet
8 TOMASDEAQUINO,Joseph
Rassam

9 - A FILOSOFIA ANTIGA, Jean-PaulDumont
11

10-=ARISTOTELES.
André Cresson
A HISTOlilA DA LOGICA,MarcelBoll e Jacques
Reinhart
12-- HEGEL, Jacquesd'Hondt

13 A ESTETICA,DenisHuisman
14 -- DESCARTES, Michel Beyssade
15

INTRO])UÇAO A PSICANÁLISE-FREUD,Michel Haar
16 -- NIE'l'ZSCHE, Gilles Deleuze
17- GALILEU, António Banal
18

HUSSERL, Arion L. Kelkel e René Schérer

19-- DURKHEIM,JeanDuvignaud
20 -- ESPINOSA

22

E O ESPINOSISMO,

Jeseph Moreau

21 -- HEm)EGGER,
PierreTrotignon
CARNAP E POSITIVISMO LOGTCO,Alberto Pasquinelli
23 - PROUDHON,GeorgesGurvitch
24- AUGUSTE COMTE, PaulArbousséBastide

25 MAQUIAVELGeorgesMounin
26 -- DAVID HUME, André Vergez

27 -- LOCKE, André-LouisLeroy

28-- SARTRE,SérgioMoravia
29 -- O ESTOICISMO. Jean Brun

30 SOCRATES.Francesco
Adomo
31 -- OS SOFllSTAS, Gilbert Romeyer-Dherbey

32 -- FREUD,EdgarPesch
33-- KIERKEGAARD.PierreMesnard
34 -- O EPICURISMO,JeanBrun
35

A FILOSOFIA ALEMÃ, Mauiice Dupuy
36-- WITTGENSTEIN,Amo G. Gargani

37-- MARIX,Giuseppe
Bedeschi
38 -: A MORAL, Angêle Kremer-Marietti

39 SÇHOPENHAIJER,
lcilio Vechiotti
40 -- O NEOPLATONISMO,JeanBrun
41 -- KARL POPPER. Jean Baudoin

ÀPSICANÁIISE

FREud

MIChE[HAAR

DEDALUS-Acervo

FFLCH-FIL

iillllllllllll
Título original: /nfrod cfíon a ZaPsyc/za/zczZyse-Freud
/
© Hatier, País, 1979
Tradução de /VanueZa Torres ../

Capa de Edições 70
Todos os direitos reservados para língua portuguesa

por Edições 70, Lda. Lisboa -- Portugal
Depósito legal n' 84758/94

SBD-FFLCH-USP
ISBN: 972-44-0399-8

EDIÇÕES70,LDA.
Rua Luciano Cordeiro, 123 - 2.' Esq.' 1069-157 LISBOA/ Portugal
Te[efs: (01) 3158752 3]58753
Fax: (01) 3158429
Esta obra estáprotegida pela lei. Não pode ger reproduzida
no todo ou em parte, qualquer que seja o modo utiliz; ado,
incluindo fotocópia e xerocópiã, sem prévia autorização do Editor.
Qualquer transgressãoà lei dos Direitos do Autor será passível de
procedimentojudicial.

lllllllllll11111
239145

PORQUÊ LER FREUD
Será necessáriofazer hoje uma introdução à psicanálise? Não conhecemos ja suficientemente o significado
dos termos

«complexo»,

«recalcamento»,

<<neurose», que

todos os dias empregamos? É certo que já;anão!:preci-

samosde fazer o mesmo esforço de assimilaçãodos contemporâneos

de Freud,

há mais

de cinquenta:: anos.

A psicanáliseadquiriu um lugar no nossom.undosocial
e cultural. Entrou. nos hábitos. Tornou-se córrentei recorrer à psicanálise; podemos ler psicanálise de homens
célebres, estudos sobre o papel do inconsciente na compra de um produto comercial ou nas nossas.opçõespolí-

ticas. Freud teve de travar uma longa e tenaz luta para
que as suas afirmações revolucionárias sobre o inconsciente fossem aceites e compreendidas:Se, justamente,
na sua .rnfrodaçãoà psícaná/íse,ele vai buscar tantos
exemplos à vida quotidiana e dedica mais de metade dos

capítulos (15 em 20) a uma psicanálisedo homem normal, é porque teve de combater muitos preconceitos,
especialmente o seguinte: que apenas o comportamento

dos anormais e..dos desequilibradosdependede uma

explicação

pelo inconsciente.

, Hoje,

as teses freudianas

parecem-nosevidentes. Ninguém se lembra de acusar a
psicanálise de obscena e imoral, como o fizeram no início
do século.Todavia,é necessáriolutar contra outros preconceitos. A psicanálise está de tal forma aceite que o seu
carácter inovador acaboupor se reduzir, para a maior
parte das.pessoas, a lugares comuns. «Ter complexos»
significa,

na linguagem comum:
9

«ter gostos especiais»

INTRODUÇÃO À PSICANÁLISE FREUD

PORQUÊ LER FREUD

ou «ter inibições». Se, pelo contrário, nos voltarmos para
gs psicanalistas modernos, Temo-losmuitas vezesmérguIhados num vocabulário hermético, inacessívelaos iiâo
iniciados.. Para eles, a psicanálise é uma doutrina sobre
a qual os não especialistasnão têm o direito de se pronunciar. Ora, a sua tendênciapara o hermetismo vai con-

sobre a psicanálise. Esta dificuldade provém do facto
de se eiiunciarem

torna-se

indispensável,

para 'reencontrar

A psicanálise não é um sistema filosófico. Para ela,

o

'r

analista. Mais adiante (capítulo

A nossa primeira recompensa será o próprio prazer

o interessede forma a esperarmos
a soluçãoàue ele

apresentará para o enigma do caso de um iloente,

como se se tratassede um enigma policial, e a arte de

nesta .rnfrodução

compli-

Esta relativa simplicidade'vezii do facto de a .fnrrod ção à pslcan(í/ísereproduzir com exactidãouma série
dF..cu111oidados por Freud, durante os anos 1915/16 e

tãjjiêínêiitê''ê;"êõma''ial;j:é$!á.dwtinad4
gn. grande
futura
r
A'experiência sobre a qual esta ciência se baseia e
que era, à partida, a do métrico que tem de tratar doenças psíquicas, alarga-se consideravelmente. Segundo o
desejo do próprio lõeud, torna-se a experiência de qual-

compreensível. O conjunto é extenscc 441 páginas. Freud

pretendeu assim demonstrar que uma te;b científica
como a .sua exige prudência, precisão e minúcia, muito
Abstéin-se

de apre

!ogo à partida, tem o cuidado de chamar a .atençãodos
leitores para as suas posições de base. Antes de as exa.
mlnarmos:.tomemos consciência de um ponto fundamen-

tal, que diz respeito à dificuldade de qualquer teoria

da

Ê uma crença, mas uma clêi}.çl4,..g}4e..$G.çlurlqyeçç.ÇQRt

gou a repetir-sç,para que cada lição fosse'por si só

matéria.

o estado definitivo

posto em causa. Figa.p(!ig...çlêro.gye-a.pslç4Dálj$g-nÕo

destes cursos durava cerca'de duas horas,'o que o obri-

à 'própria

não constituem

a importânciadessasalterações,
o fujlÊÚoRessencial
da

à i.' edição). Cada i;m

sentar bruscamente as luas conclusões aos ouvintes. Pelo
contrário, leva-osprogressivamente-- cada lição introduz
apenas um pequeno número de elementos novos-- a assimilar a. sua mensagem. Muitas vezes, faz com que as
conclusões se destaquem e se imponham por si próprias
a partir de uma acumulação convergente dos factos. 'Mas,

as re-

psicanálise(tal como é expostono capítulo 1) não será

1916/17, «a um aiiditório composto por médicos e leigos

tempo .dedicado'

abordaremos

doutrina freudiana. Freud será levado a .revê-la depois.d
de 1920por razõesque não nos é possívelexpor dentro'%
dos limites deste trabalho. Todavia, qualquer.gllq

cados através do labirinto do psiquismo humano.

de ambos os sexos» (mofa praia

VII),

gras da cura psicanalítica: Enquanto teoria, a psicanálise
define-se como uma série de hipóteses, que, inicialmente,
serviram apenaspara dar conta de fenómenosque se
produzemao longo de uma cura e que depois acabaram
por abalar a compreensãodo psiquismo humano em geral. Mas estas hipóteses são slisceptíveis de serem modificadas em face de novos resultados. As teorias expostas

que obteremo! com essaleitura: Freud é'seÚipremuito
claro, sóbrio, lógico. Possui em igual grau a arte de demonstrar através do pormenor, a arte de nos prender

seus raciocínios

trina sistematizável, foi e continua a ser um determinado
método para curar as doenças psíquicas. A.«originalidade deste método de cura está no facto de não constituir

mais do que uma troca de palavrasentre o doente e o

Çallj\JD.

sínteses .simples.dos

verdades

a teoria não precedea prática. Antesde ser uma dou-

sentido original das ideias freudianai para além da sua
wlgarização e da sua exegeleerudita, cingirmo-nosao
esforço pedagógicoque elé fez e que nos pede que fa-

apresentar

de base como

de experiência.

tra os ensinamentos de.Freud, que quis ser um pedagogo
para todos. Se o seu esforço de persuasão já nãõ é nécêssário . hoje,

hipóteses

a priori, enquanto que elas só têm valor por terem sido
confirmadas através de um longo trabalho sobre factos

quer homem, do indivíduo normal. .P.çlÍ..g.grande..interesse
d:}.!çiturq..4e FleN@; .apreQçler.q:.co211heçeE$ç.&.,si..prépElg.
;.PFimeii=õ:'ã$i=êndé:se ã'psicanálise sobre o nosso corpo,
-'}

através do estudo da nossa personalidade», diz Freud
(p. 9). Aliás, as noçõesde normal e anormal são extremamente imprecisas. Neste aspecto, é preciso não esquecer que o própria Freud teve uma neurosenuma certa
fase da sua vida (poucoantesde 1900).Ele próprio reconhece a existência de um estado neurótico, cujos sintomas descreve: :gteEpçtéç$...bruscas dç.humor..depressão,

INTRODUÇÃO À PSICANÁLISE FREUD

êDg!#!!!gJ)ergplÊ..ê:.malte: peranlç..g!.Viagens, etc. Mas,
mesmo para quem sejÍà'alheia'ã'qRi:lilijüer-aiitiide

'heuró.

tica, a psicanálise traz algo de novo. Bsçlêrecefactos que

tidos nós obsetvamQg.:Bg:
vida quotiaíãiiã:"êõMaw so-

ÉJuiãã:éê$éêie--de-pequenas--«falhas» dQ..çomportêiBgDto
qa::.yidi{.quotidiana, cimo os lapsos, erros involuntários
di toga. a espécie,esquecimento;, etc. (capítulo 111).Mas,
em última análise. .g..jBlgrç!!!ç,..da...p$içanálisel.SQnâjste
eip..!Qeneçgl, .f'!x11.14ç!-ç.ugung.gqE.S$pljgaçõÉê;'d;;
S??.2$q!!!caâ.g.ge.certa:i..factgli:da.yiaaquoüdíêinã;'um

ãbÉl;
a

fhQvq.b:41;ê..:lnlçljÉretarlgdag:jlÍ. iüanif(;Üaçóés 'da':imâ
humano.....IH.g..uÕc;-aéjjêbia;"ae''arte'.' óg- féiióhêãõ:-de
.ç3úu1]4..g.dp.çivili elàãçE.êê$g.êl.$õtãí,'ã'rêli#ãã:fiÍÉJK
!iç4....glç, Vemos, pois, qué'üniã''ãtéá"iãó iã'dêíiã-o
campo.livre às especulaçõesmais delirantes se os conceitos de base não 'forem claramente definidas.'

1. AS TESES FUNDAMENTAIS
Dh INTRODUÇÃO À PSICANÁLISE

novos territórios: o inconsciente, a sexualidade. Ou então
aquilo que assim designamose que julgávamos conhecer
não tem para ele o mesmo significado que anteriormente
Ihe era atribuído.

Além

disto,

estes dois campos

des-

truíram a imagem tradicional do homem, e daí a aversão,
o afastamentos

tomemfoi seiluFe analisada..na..tradiçãofilosófica
desde Platao como ãaniiilaí racional». ; Rêiõi;liêEêiãlhe
üm. fundo de animalidade. de paixões obscuras, mas esse
fundo nada tem de i nquietante, pois o homem controla-as
pela razão e pela vontade
, a existência de um pen
samentoou de;uma vontade inconscientesfaz coM que o
homemdeixe de ser senhor de si p
lo. O homem já
não é senhor do seu
Não é de
ararque Ihe re{

admitir que os seus pensamentos e os seus desejos

sugeridos,inspirados inconscientement

parte de si mesmoque ele ignora. Além disso
de si mesmo que o determina nas suas meti
fundas representaum domínio bem mais vasto que o.eu
}

#

/2

AS TESES FUNDAMENTAIS

INTRODUÇÃO À PSICANÁLISE FREUD

consciente. só conhecemos o inconsciente reflectido na-

consciente: a parte que emerge representa talvez, como
no caso dos {cêbergs, apenas um décimo da parte imersa.
Finalmente;':paracúmulo da frustração, essaparte escon-

quilo que é .acessívelà consciência.De entre todos os
fenómenos psíquicos, alguns produzem-se de um modo
mais visível~que outros, fora do controlo e do domínio

dida é .para ele tão impenetrávelcomo o piiquilmo de
um aútio. Com Freud, o orgulho intelectual do homem

da consciência.Freud dirá que a«interpretação dos sonhos é a via real que leva ão conhecimento do incons-

recebe um duro golpe.

Por outro lado, afirmar que o essencialda energia
que anima a nossa conduta provém das tendências.se-

ciente (:)»-.Finalmente,

os testemunhos reveladores
pam.. O principal confribufo

xuais, ou seja, daquilo que Freud chama líbido, significa
privar-nos

da nossa liberdade,

.da nossa capacidade

os actos «automáticos»,

os gestos

ou palavras que deixamos escapar involuntariamente são

de

de intenções que nos escaconcreto da psicanálise .é,

pois, alargar i) domínio daquilo que tem'.umtsentido:

escolha, isto é, de toda a moralidade.' Se forças sexuais

subterrâneasinspiram, sem que o :saibamos,o que jul-

estesfenómenos, durante muito tempo considerados aber-

gamos fazer por amizade, por caridade, por desinteresse,
hão seremos: palhaços, foguetes, apenas dotados da cons-

e as neuroses, pertencem a partir de agora ao.;mundo

rantes

ciência ilusória de ser livres?

saber se o significado que Freud atribui a estes dois
e sexualidade --

como

os actos' falhados, :os sonhos

humano, ao mundo do sentido. .Exprimem.. ínfenções,
dose/os. São.;actos : psíquicos tão completos como os
actos ::conscientes .

Para ultrapassar a mera reacção afectiva, é necessário
termos --inconsciente

e absurdos;

Mas, como se constitui o inconsciente? Segundo uma

não será inteira-

afirmaçãopuramente.
descritiva,:isto é, que.se limita a

mente diferente daquele que habitualmente lhes.era atribuído.

constatar um facto,

O inconsciente é o essencial da vida psíquica
A partir de observações sobre certas doenças psíquicas, Freud é levado a abandonar a ideia, no fundo banal,
segundo a qual.. existiria uma maior parte de- inconsciente do que de consciente' nos fenómenos psíquicos.
Não basta dizer que o inconsciente é importante. É necessário dizer qué «o inconsciente é o próprio psiquismo (:)».
.Nela...!Q!!Q.Wensamer!!Q;álnconscieptç;,..Hês....dg..eeHa
fór;iha. todo ..Q..pengameptQ: {çsidê: p!.!melro..llQ !Bçont
.çiéiit% Freud vai demonstrar, não a existência do inconsciehtç,, mas a proveniência e a dependência de todo o
psiquismo em geral em relação ao inconsciente.Segundo

uma imagemdo próprio Freud,.Qj!!çQpsciente
incluí o
Çem.ientÊ..14...«Q.Jln-]«g
c rculo: maj!.pçquKnQ..tiQ.SQDlidQ...dg..gyg..g.

jii;efigura

e

deterhinã=
Mas, de que modo o inconsciente é conhecível? Na
medida em que tudo aquilo que conhecemos'-pertenceao
(') Freud, l,'ínferpréfafíon

des rêt'es, p. 520, P. U. F.

$

íülgõêi'não são nem psíquicasljnemcorporais; mas si
(') Freud,*Z,'inferpréfafion

des réves, p. 517, P. U. F

AS T,ESESFUNDAMENTAIS

INTRODUÇÃO À PSICANÁLISE FREUD

ruam-senoülimite dos dois domínios:traduzem,por
assim dizer, para o psíquico as exigênciasbiológicas. Mais
adiante precisaremos as características do pensamento
dominado pelo desejo e sempre em busca dó prazer, que

nãoÉsesubmetenem à cronologia nem à lógica. Contentemo-nos com.Assinalar uma característica importante:

K

}'

os conteúdos inconscientes são levados, pelo seu próprio
dinamismo;' a tornarem-se conscientes; todo o inconsciente tende a passar para a consciência.
Se esta tendência das representaçõesinconscientesa
manifestar-se pudesseexprimir-se livremente, não have
ria inconsciente verdadeiro e definitivo. Mas, a experiência mostra que uma certa força se opõe à passagemde

todo o inconsciente
para o consciente.\
Essaforça que
mantém uma certa parte do psiquismo fora da consciência chama-se recaZcamenfo. Do ponto de vista não «des-

critivo», mas «dinâmico»,o inconscienteé o recalçêd

Com efeito, os elementos reõãlEããõgêlêi;êêi=iiiiia pressão
contínua na direcção do consciente. O recalcamento constitui a contra-pressão em sentido -contrário. Isto pressupõe, da parte

do ' indivíduo,

um dispêndio

constante

de energiapara manter o equilíbrio.
Para concretizar o mecanismo do recalcamento. Freud
pre:iiiijiõê"tiííígiiigtãiicia de coiiiiõ16'ã Zlêãiiifli::=lã.ãBal ,
iiãÊ guias-con6drências;-designa tambãii i;õt ídeclL 4e eu
(iiíãígqãi'dê;'o super;eu)T A:'tensütêÍ-aliêita ou 'recusa
deiíãíPãggãí=p'arauHeRferas superiores esta ou aquela
representação vinda do inconsciente. A censura:jÍ çgmparadg..g.u]!]..g%ardaque inspçççlggê. tõlããi'ãi'iêhdêiiêiãs
el:êa'alguma Ihe desãÊÊãdã:Eá-l; voltar pel(!.!pq$!pg .ç:arEiiihõ;"üesm:õ"ãiiê'ela-tenll:Ei:..iá..g!!!dado
.pó 'ofê:êoD$ciente.

,a censo?a'ÕZieeicêrceo rega/camentã'nã(i se sifaa, portanto, ao nave!do eu consciente.mas a um nível inconscíenfe do eu. Ela é o «mecanismo de de/esa lío ezo,contra
a instrusão ddlêhdêüeMçãííáj?qiiiinsí;i5êÉQõiã;;==aéúã.
iiaao e41gênÊesj:linhas
sçPqte.
Através!;do quadro que se segue, podemos imaginar

os diferentes «lugaresdo aparelho psíquico:e as relações
principais que entre si estabelecem;é o que Freud chama
a «tópica» do psiquismo (do grego foros, lugar).

CONSCIENTE

INCONSCIENTE

A seta grande designa a direcção espontânea,automática, dos processos psíquicos: do inconsciente para o
consciente.A censura está representada pelo X, barragem entre o inconsciente e o pré-consciente.As duas setas

mais pequenasque se voltam para o inconscienteindicam a operação que, ou mantém o recalcado no inconsciente, ou o faz regressar para lá, caso ele tenha conseguido(pela força ou pela astúcia) penetrar no pré-consciente. Vemos--que--a-t
!eD!.um ' sentjdQ...aposta..êQ dinamismo dõ'inconsciente
cuja iêiióêiíêiã é sempre a 'aê"gí'iíiãiííllêiiãi:
Freud reconheceqiií'í êêhsura'é uma simples'imagem: constatamosque há no psiquismo manifesto (consciente) partes

sistematicamente

,cor.tadas. Podemos com-

parar estes bocados recalcados às passagensde um texto

(de um jornal, por; exemplo)ique tivessemsido «inuti-

lizadas» (passadas a tinta negra por qualquer autoridade
policial)

a fim

de tomar

: ininteligível,

e, por exemplo,

impedir os cidadãos de um país de tomar conhecimento
de certas notícias

desagradáveis

para o governo

desse

país. Portanto, o.;autor do recalcamentoé ol:próprio
inconsciente(Freud

só mais

tarde desenvolverá

a . sua

teoria de um eu inconsciente,
ou super-eu),e, as verdades que ele esconde são essas representações ou esses
desejos que ameaçam a integridade do eu.
Vejamos um exemplo: durante o período do complexo

de Édipo(período de crise nag relaçõesdai criança de
cinco anos com os pais) a criança tem fantasmas (assim

/7

INTRODUÇÃO À PSICAN:ALISE FREUD

AS TESES.-FUNDAMENTAIS

como quem sonha acordado). A criança sonha que possui
a mãe só para si, que a leva de avião para muito longe,
que casa com ela, que tem filhos dela. Ao mesmo tempo,
sente-seculpado.em relação ao pai, quer devido aos seus
sentimentos para.com a mãe, quer devido às suas prá-

O papel decisivo da,sexualidade

ticas sexuais

(masturbação)

e por isso tem ..um outro

fantasma, o de ser castrado pelo pai como punição. Ora,
esses fantasmas, quer tenham ou não subido um momento à consciência,são fortemente recalcados durante

a evoluçãoposterior. Porquê?Porque o eu, nas suas relações com os outros, ficaria ameaçado.e comprometido
pela intromissão no consciente de tais desejos tão incon
fessáveis Cluanto irrealizáveis.

Assim, o personagemde Hamlet.na tragédia de Sha-

O prazer que o inconscienteprocura«.é sempreum
sexual? ;Mas,: ;o
le é um:.prazer sexual?Qual é
sexualidade?: Não lé possível
a'(definição freudiana
avaliar o papel novo que Freud atribui à sexualidade-se
nãó compreendermos que ..e]e ]hei, alarga consideravelprazer

mente o campo .g. dã. uma; interpretação =dç fenómeno
sexual'inteiramente diferente da interpretação que antes
se'en
Ihe davam e que ainda hoje é da
Freud
tende por sexualidadefora da

trita». Com
sexualidade
absolu
efeito, limitamos normalmenteo aspectosexuala todos
os co:
.to
tend
cto sexual, para
(p. 299), é uma

kespeare é,l segundo Freud, umvnotável exemplo de um
ser recalcado, . no qual o recalcamento

é mal t:esolvido.

O :Seueu é fraco, vive numa perpétua.-hesitação
entre o
sonho e a realidade. Não consegue agir, isto é, vingar-se
daquele que matou seu pai:",Porquê? Porque sabe, no
fundo db seu inconsciente, quem
ésse outro é eld próprio,

,0

c)s

ele que desejavaa morte.jdo pai e a união com'a mãe.
Mas, mesmo quando o recalcamento é mais bem .resolvido do que em Hamlet, nunca é perfeito. As3representações rêcalcadas

tendem sempre a: .subir à consciência

e é para o eu um trabalho de sísifo.:barrar-lhesconstantemente lo caminho. A luta para manter o recalcado no
inconsciente é tão difícil para o neurótico que Ihe absorve
a maior 'parte da energia e Ihe paralisa a actividade
exterior. Contudo, os dese.josrecalcados encontram, apesar de tudo, meios paralelos para atingir uma satisfação:
obtêm .safisfóções subsfíf ripas, indirectas e simbólicas,
à revelia da consciência.Esta exteriorização substitutiva,
estes prazeres ou ilusões de prazer de substituição constituem aquilo a que Freud chama «retomo

do recalcados,.

É.:ele que se traduz por actos falhados.,sonhose
sintomas

neuróticos.

Toda

a psicanálise

mais

que o estudo dessas.-suba!ífuíções:..trata:$e

não

é ..do

de demons-

trar qual a relação que.çxíslçç g.n4rç.uma mãniféÊtãçao
aparentemente absurda e um 4esçjo incohêêíente=mpgicanálise poderia definir-se colho a piõcüüa ê'a'tlêãiüistificação das formas ilusórias. da satisfação.

tde

.0.

:1'

e

m.o

as ;íperversões; . ver

capítulo V) Mas uma: definição deste lgénero não;mos
permite sequer compreender um acto simples que l -tem
o seu valorllpróprio,

odifj

d

como =o beijo. É, pois,Jnecessário
sexualidade como a noção de

[es do corpo são capazes de desempenhar um pape]

Assim, veremos que as zonas erógenas,isto é
capazesde excitar o desejo sexual,não estão limitadas
genitais; outras zonas podem também ser in
e uma função erógena, consoante a ;evolução

individual.: como por exemplo, os pés; os2seios, etc
xuai t
!!D', a:ene
llçlBI
lmp :os e a
lê":iliilifíêi:5i"'transformações
e ad
ISceptíveis

INTRODUÇÃO À PSICANÁLISE FREUD
AS TESES FUNDAMENTAIS

A..]ib@g€ WBçialmente.Mstiçê...k!!!éye!:. Q.seu recalcamento e !!griBêliQÇDtç..ê..Êausâplincipd.-.ãã&.pertyrbê-

excrementos,

çfc. cara

!e !çn-

....&sviol=lãb

tíao, a rormq:jQrjgiãH' da sexualitlade. Estas tendêiiiiiãs

o12BeçjÚQ.iexup!..bala.objectivos-.idçaig.expliçl..L maior
parte:.dat.prgdi4®ê;'êliltyll:ais..soçiaii êlatüstiéàWuiiünidade.

perversas, .e em particular todo o auto-erotismo (ou seja,
o prazer sexual ! solitário),::devem
sofrer um . recalca-

çõêCjiiíqluicas.

esta

. .:8n$Da.ia bZilzzaçiãbJ$tã..é.-o

doutrina=freudiana

:foi.íneiorativamente

Qualifi-

mento-para que a sexualidadese torne normal. O recal-

cadaae«pansexuausHO»:
.ver a sexualidade
em tudo.
É fácil compiêêiiaêiáue uma tal acusação
iãiêria Jus-

camento,

tificada se ai pulsões.sexuais fossem as únicas (são muito
importantes. mas, afinal, nem tudo se reduz àssexualidade) e se a sexualidade fosse um mecanismo rígido que

via, é. significativo que a 'criança deva esquecer, por
exemplo, a ameaça, real ou imaginária, da castração pelo
pai, e esquecer também as primeiras descobertas do prazer que pode obter com certas partes do seu corpo. Êste

conduzisse
o homem.para
certosfins já fixadosà partida. Ora, na medida em que a sexualidadenão é a procriação, esta mais não é do que um poder indeterminado
que deveestabelecerpara si um fim e uma forma. A sexualidade não é mais do que a possibilidade que pode
levar a várias realidades: relações amorosas, mas também
criaçõeséextremamente variadas, como um laço social,

uma obra literária, etc.

Mas, um dos temas da psicanálise!.quemais escandalizou

foi

incontestavelmente

a descoberta

de que as

crianças têm uma: lida sexual. E o que Fleui] [ig1lou
sobre.ipso foi também.çscandalp©!j3dijjjã:ãjj3lâÜãljdade
id%l!$1.}õij+$3bç!$F$z\i=.(j:quCÊignifina--:isU?A.-pavêtiãó. sexual êõhiiêteim recmal:.a..fím normal da sexualidade.a unjêo dos órgãos genitais de sexos
dendo ]évat a
criança

está ainda fixada. É
mente vários tipos

e

.ece

õfiiiãção, em evolução, e não
ll' Isso
experimenta sucessivasexual:
antes de se concen

trar nos órgãosgenitais,:
o prazer liga-seprimeiro a
tudo o quepodeagarrar ou tocar com a boca. Depois
sentirá um

prazer em exercer as funções de ex
V). Segundo uma expressão que iria
chocar muito os seus contemporâneos,Freud,longe de
creção (ver

atribuir à infância a

e a inocência.

revela a sua

«perversidade bolimo:
sto é, que toma várias for
mas). Na-çl:onça ?erversidade significa ignorância das
barreii;àê morais. dãi'''aÜêÍÜÕêé S
serão
J

iãEülãaã#:ãttavég'"(mliêêção:'êõüõ

r

incesto com os memoros da família, êõiliàÃ.ã\rérsãõ @';
20

destes traços

da infância

e

esquecimento
é constitutivo do inconsciente.Estaspri-

meiras experiênciasvão condicionar todos os comportamentos posteriores; tanto normais como anormais.
Assim, não só a sexualidademas também a infância
)iíqi4cai''ÀI

primeiras

nnpresêãêi

da infância,

o modo

êõiiiõ á criança foi tratada, amada, os seus primeiros
conflitos com os pais, as suas primeiras angústias perante a solidão, a perda eventual do afecto, todos estes
acontecimentos permanecem indeléveis e estão destinados a dar posteriormente um certo carácter particular
à nossa experiência futura, a metê-la num molde, por
assim dizer. Porque

o que é- próprio

do inconsciente

é

não esquecernada, conservartudo. O inconscientede-

'D

pEêzêí'3eicua/ foral
A sua sexuãlíMade es

o«esquecimento»

de certos acontecimentosquem'mais
marcaram a criança
na sua relação com os pais pode parecer estranho. Toda-

fine-se como o recalcado e o infantil. Mas, será também

o sexual?

INTRODUÇÃO À PSIC/NÁLISE FREUD

.[

presente,.{procurando

simultaneamente

#.;satisfação

de

lodos os desejos, o que é impossível, e num egoísmo feroz.

O inconsciente eleve, pois, ser continuamente. recalcado.

mãé.:jãÕbêÕ.q.lçêw-

$enta a fogtç .delodq..ê.Energia

bsíaujçB-que...possuímos,
etJL$1éVêiti2...dgunrLaum$tiiiêí$i'!i.lç!..21ilZgÍ2iQ...cZG..reaZldade. A rRêljdad$-significa Q..ççlnQrária..da..inconsciente:
a .çgçolha. a-paciência;''ã'perihanênciã,.,Ê.a..sucessão
no
!e=n)pa«arealizaçãQ. das obrar..e-n-estabelecimento. de rela-

ções humanas estáveis.

11. SÍNTESE DA OBRA
Em resumo: gg aclggjaZ&qdas.-.as.sonbQg..g!
sitzío-

mas .?Beutóticos,iê;fíiiã' ]Z;indo. Ésse sentido 'ê"iêi;êlaão
pela -anális.q..dQ.recalcamento. .e da sexualidade.
A .rnfrodação à IB;b2inã/isê'é boihpoéta, 'pois, por duas
grandes partes: a primeira, que trata dos !ãcros /aZ;lados

e dos son/zos,diz despeito ad homem normal; a segunda
diz respeito às neuroses. Mas a unidade da obra assenta

no facto de Freud mostrar que todos esses fenómenos

são significativos, significativas de uma intenção do inconsciente. Longe de se poderem atribuir ao acaso e de
serem indignos- de estudo, são reveladores de uma in-

tenção, mais exactamente, de um desejo inconsciente,
portanto, oculto ao autor do acto. Afirmar
que esses
fenómenos têm um sentido significa que são '«lógicos»
/

(mas o inconsciente tem a suã própria lógica),; iiiieligíveis e que têm um papel a desempenharno conjunto da

vida psíquica.Freud'tudo fará por demonstra
r que a

ucplicação de todos estes fenómenos obedeceã -um
mesmo prízzcípio. Assim as neuroses irão pâr a nu aquilo

que o acto falhado ou o sonho teria revelado num plano
limitado.

Este.princípio comum de explicação,para além de
}

exprimir

uma

intenção,

pode

resumir-se . deste

modo:

esses:fenómenosconstituem compromissos otl, o que é
a mesma coisa, satisfações substiiutivas.
Examinemos o modo como sê produzem essescompromissos nos três casos.
22

23

!NTRODUÇÃO

À PSICANÁLISE

SÍNTESE DA OBRA

FREUD

Os actos falhados

manifestar-se.
Por isso,podemosafirmar que há com-

Freud entende por «actos falhados, os pequenos «lapsos» da vida

quotidiana

como desatenções, 'erros

invõ-

llintários, lapsos(dizemosou escrevemos
uma palavra
diferente da que queríamosutilizar). Por exemplo,num
banquete, um jovem quadro de uma empresa propõe, na
altura dos brindes, «Brr.Qtê{» à saúde 'do di;ector, em
vez de.bçbçr(as duas Õalavrãs são parecidas em alemão).

Ou entãoi:'logo nas primeiras palavras do seu discurso
inaugural, o Presidente da Câ.mau dos Deputados declara: «A sessãoestá encerradas.No primeiro caso,adi-

vinhamosque o jovem assistentetéin dificuldadeem
esconder o desejo de insultar o seu superior. No segundo

caso, o Presidente mostra o desejo de ver terminados

os debates,que certamentereceia'(p. 25). Freud conta

ainda a. seguinte anedota: numa excursão aos Alpes, encontra duas senhoras:da alta sociedadevienense.i)urante
a conversa uma delasqueixa-sedo calor; diz que tem a
blusa toda molhada eFlque gostaria de regressar «nach
Hose» (em

vez de í«naco Hausob

para

Para que haja

lapso,

é

;ário haver-:: um

recalcamento: o' recalcamento de
ltenção-de dizer
coisa constitui a condição indispensável do lapso
A intenção reca]
lvés do lapso
deve estar
de,,se tornar
»

recalcado

.e)üiTÍ .0

Assim, :Q

e é que há compromisso? O compromisso

o de o lapso se situar exactamentena in

tersecção de duas intenções. Constitui quase uma sobreimressãoou uma fusão das duas
consciente. serve
.e cobertura; a outra, recalcada, exprime-se pela deformação da primeira. Geralmente a primeira impressão
traz uma mensagem relativamente anódina, em todo 0
c;aso aceitáve]

o indivíduo

A outra visa exprimir um pensamentoque

não aceita : conscientemente . Aquilo qye é
admitido mascara o que é rejeitado, mas através daquilo
que é «conveniente», o. inconvenient:netra e consegue
24

modifica

a intenção

.confessada,

ou confunde-se

total-

mentecom ela(neste caso,utilizam-seexpressões
de
duplo

sentido, procedimento,

frequente

nos 'gracejos se-

xuais), ou toma pura e simplesmenteo seu lugar.

No capítulo 111,estudaremos o método de que Freud
se serve para revelar as intenções inconscientes não apenas nos lapsos, mas também nos,esquecimentos,esqiie-

cimentos=
de nomes,de projectos(esqueço-me
de pâr

uma carta no correio, ou esqueçoum encontro que.marquei),. bem como em . diversas

anomalias

de menor im-

portância na vida quotidiana.
Os sonhos

casa) para se

mudar. «Hoje» significa cuecas: a senhora quereria dizer
que também tinha as cuecas molhadas. mas por boa
educação, «recalcou» essa intenção O lapso é, por assim
dizer, a expressãodeformada, oculta dessa intenção recalcada.

promisso -- compromisso, no fundo, entre o incon.setenta
e o conscíenre:«O recalcamento é em parte falhado e em
parte bem sucedido». Mas a relação entre a intenção confessada e a intenção inconfessada é, por vezes,mais complexa! no seio da expressão. A intenção inconfessada ou

A demonstração parte dos mesmos princípios: l. O
sonho !:D..!:n..89nlido; 2. Esse sentido é uma intenção,
i:?ii3aêjõ recalcada'Mas o método de decifração é mais

êõiiii;Bu(3''iiã'mdida em. que o sonho, segundo Freud,
realiza um trabalho í subtil . de transformação
dos ele:
mentes inconscientes oü recalcados. rodo o son;rosé a

INTRODUÇÃO À PSICANÁLISE FREUD

SENTES:EDA OBRA

do eu consciente. Assim o sonho poderá ser um compromisso entre o desejo inconsciente e a conduta consciiihte.

pre como sendo as mais importantes para:'a descoberta
do desejo inconsciente.

Por exemplo,S$tQP:jâ-d©!'i!!illü.s:çj-que
tenho de me le-

yaplêt..PH'a.Ltnabêlhêlj!.ionhiãj=qiiê=á
êêiou--ziêóigã4o
Ê.pEgplq -a..dedicanmç..à$. minhê$:1êêuj;ãêõeC'Um-sonho
deste..npci-concilia, evidçnteineüçç, g aê;lijT$i=i5têlíiêhte

As neuroses

4g..prbcjüg.gg.prazer;é.jdesêja'ae-aoriiííi''íã lijiteiíçãb

Em primeiro lugar, o que é uma neurose?É uma

dei;íj4dá l.dó-Principia.dê.. rçalidadeE:it ..pata d {raballilo.
DÍ umumodo.:mais ou menos desviado.-iodo o :conho é
a realização imaginária ou simbólica de um desejo. Quando se trata de desejos diferentes do diãejo de
dormir,:: desejos severamente recalcados pela ce;sura,
como, por exemplo, o desejo de ter relações sexuais com
esta ou aquela pessoa,a realização do ilesejo apresenta
frequentemente uma forma muito mais deformada e mascarada. Qüanfo mais severa é a cetzszzra,fanfo maior será

doençapsíquica, cujos sintomas podem ser físicos (mas
geralmente.não são curáveis pela medicina) e que se caracteriza por um comportamento inadaptado em relação

a. deformação

sente: iconstantemente

às exigências comuns da vida. O, doente. ou experimenta

uma grande dificuldade em realizar determinadosactos
aparentemente:. simples,

do desejo.

.!glçEprçlar-u!&..g9111lQ..(vero cap. IV, nomeadamente
para os . exemplos de sonhos) CQBgistirá-emJlartic...do
«çgntçúda.manifesto
»,...i$tQ-.é-daquilo.quÊ..Q..SQphQ
!jyêlneiije-anta.(gçrlllmçp.tç.unia.pequena.história,
que; está escondido

e transposto

de objectos

c

para

promisso:fservem-lhes,.
nos"a eficazmente)

9.SQ1111Q.CQzzdensa
vários

. ou:preãsamente

à de uma abafada.; Com

pos!a nos seus elementos

decom-

cordações! . ideias,

trativo.

(personagens, palavras, acções,

representações,

comparações

que se

associamlivremente com cada um dos lirm(3s do.;;onho.
Devemos abster-nos de rejeitar as ideias aparentemente
sem significado

ou deslocadas, pois elas revelam-se sem-.
2Ó

(mais ou'ame-

do recalcamento

plos citados por Freud e que é particularmente
#

(Freud

demons-

Trata-se de um caso de neurose obsessiva. Este género

etc.) e, em seguida, procurando pâr de lado qualquer

reserva, restrição ou crítica, tenta-se encontrar as re-

para se protegerem

dos 'efeitos:

mostra, com efeito, que toda a líbido recalcada se transforma em angústia) e ao mesmos;tempo para;'manter
esse recalcamento. Uma das condições essenciais da neurose é que o doente não sabe o que recalca, isto é, ignora
oscdesejos escondidos no seu. inconsciente.' Mas uma
definição deste tipo é difícil e abstracta. Por isso, para
a ilustrar, é necessárioapresentar à partida um dos exem-

Í4êiê-pãi.a outr!% ,além disso, é ui;Í grande'ZãieããdõE
serve4e'hólnêadamente das recordaçõesrecentes.;como
de uma matéria-prima que irá transformar. A decifração
do sonho é lsemelhante'à de uma língua especial(Freud
compara-se a si próprio a Champolleon, decifrador:de
efeito, a narrati'Üa do sonho é minuciosamente

õ:'iiiai;'z"iifi$õtzüíc

Segundo Freud, os ]iêili:ótíéóg'iafremde"recalcamento.
As suas perturbações::desempenham um papel. cle com-

factos nulo..único...ou-.zíesZoca..a.erga.€111Qêiõiiajmi':üifiá

hieróglifos),

físicas, cujas causas

a sua própria personalidade. .A nearQgg..4gge!!çg4€!g..ggÚZ.g-grandes sofrimentos,
d(5:":ãüãis: o neurótico ' está

tais como' uma chave,l11üma

do disfarce:

perturbações

satisfatórias com os outros. tem dificuldade iem\definir

caixas"um comboio, etc.), mas revela também os mecanismos essenciais

ex-

cial, etc. Ou então, não consegue estabelecer.-:relações

efecwíí4

certos símbolos do conteúdo manifesto. Freliki não 'descobre apenaso simbolismo do sonho(geralmente a significação }sexual

de' precauções

não se detectam: dores de cabeça, dos olhos, paralisia par-

!spécie de e11ççDêçgõFpâiá'as «ideias'latentes» do sonho,
ou ; seja:àquilo

ou rodeia-os

traordinárias. Ou então, sofre de obsessõesou sente-selevado, contra sua vontade, a efectuar gestos cujo sentido
não compreende,mas que não pode deixar de fazer. Ou

de neurosecom obsessões,ideias fixas, é bastante fre!

quente. Uma jovem de 19 anos cuja obsessãoprincipal é,

ao deitar-se.realizar uma verdadeiracerimónia,um rito
complicado sem o qual não conseguedormir. Para além
desta obsessão, sofre ;ainda :de irritação,

:nervosismo,

de-

pressão, agorafobia (medo de atravessar as praças e as
27

SÍNTESE DA OBRA
INTRODUÇÃO À PSICANÁLISE FREUD

ruas); tem constantementediscussõescom a mãe. Todas
as pessoasnormais têm uma certa conduta antes de se
deitar, nem que seja tapar-se com cobertores ou fechar
as janelas. O paro/ógíco não é mais do qae am exagero
do norma/. As'precauções antes de se ir deitar toma;-amge, para a doente,num ritual complicado,muito rígido
(faz sempre o$ mesmos gestos), apa;enteménte irracional
e que é .absolutamente

'indispensável

para que consiga

dormir. A doente tenta justificar («racibnaliz;r») as pJ;cauções que toma, dizendo que necessita.ldecalma. Deve,
por isto, eliminar todos os ruídos possíveis.Toma dois
tipos.de .precauções:«Em primeiro lugar, trava o grande
relógio de pêndu[o que está no seu quarto e man(]a retirar todos (is outros relógios, não excluindo sequer o seu
pequeno relógio de pulsa que está no estojo; em seguida,
coloca sobre a secretária todas as jarras 'de flores e va:
sos, de tal.forma que nenhum delas possa cair durante
a noite e, desse modo, perturbar o seu sono» (p. 247). As
outras condiçõesdo cerimonial nada têm a ver com o
facto de evitar o ruído: a jovem exigeque a porta que separa g.seu quarto do dos teus pais fique aberta. Para isso,
imobiliza-acom toda a espéciede ol;rectos(que,ao cair,

+

poderiam faze! barulho!). Finalmente, as precauções mais

importantes dizem respeito à maneira como arranja a
camas«-0 travesseiro que está à cabeceira da cama não

pode tocar na madeira. A almofada mais pequenatem
de.estar disposta em losango sobre a maior e a doente
coloca. a cabeç! na direcção 'do diâmetro longitudinal
desse losango:'O edredão de penas deve ter sido previamente. sacudido, de modo a que o lado correspondente
aos pés.fique mais espessodÕ que o .lado oposto; mas,
depor

de ter feito

}slb, a doente

logo desfaz todo

trabalho, e acama o lado espesso.» (p'247).
A:, interpretação.

destes 'sintomái

vai: mostrar.nos

esse

o

sentido de uma neurose, as suas causas e a sua formação.
Freud. teve .de se entregar .a uma. investigação longa e
minuciosa, descobrir o significado de todos os elementos,
para chegar à síntese que nos apresenta.

Primeiro fenómeno surpreendente:todos os porme-

nores do cerimonial da jo'úem obcecada são simbólicos,

o qpe :ignifica que representam,.de modo figurado, vi:
sualizado, .os seus conflitos

e desejos inconscliêntes. 'An-

tes de tudo, os relógios simbolizam os órgãos sexuais

femininos: evocamo ciclo menstrual, o tic-tac representa
as pulsações do clítoris durante a excitação sexual. O
facto de ela afastar os relógios significa a sua recusa

do desejo sexual.;Jarras de'flores e vasos são' outros
símbolos

da feminilidade.

O receio';de

partir

os vasos

está ligado a uma recordação de infância que só as perguntas do analista(raramente uma confissão espontânea) podem revelar. Quando ainda era pequena, caiu ao
transportar:uma jarra de::vidro e fez uma ferida que
sangrou abundantemente; O gesto de afastar as jarras
para evitar parti-las significa o receio de perder a virgindade(simbolizada pelo sangue),e também o receio
oposto de não sangram.Com efeito, o inconsciente contém muitas vezesum desejo e o seu oposto(é ambivalente). A explicação

do cerimonial

do -travesseiro

surge

também ao longo do interrogatório de Freud: o travêiseiro representa a mulher, a parte verticalEda cama o
homem, o pénis em erecção.Com o seu gesto, a jovem
pretende separar o homem efa mulher como qiie por
um acto mágico,ou seja, impedir os pais de terem relações sexuais. Este último significado não é evidente..:SÓ
é revelado através da análise:jde certas recordaçõesdo
passado. .Quando

era criança,

fingia

ter medo para que

os pais deixassema porta aberta, e introduziu este elemento do seu passadono cerimonial. Também queria
espreitar os pais durante a noite. Ainda hoje ela se deita
entre o pai e a mãe,:na cama deles, ou consegue,fingindo ter medo, que a::mãe Ihe ceda o lugar junto do
pai: Fazer inchar o edredãosignifica uma mulher grávida
ou a engravidar; em seguida, éla anula o seu gesto: O travesseiro grande representa a mãe,: o pequeno a filha.
Pela sua disposição em losango, o:.travesseiro pequeno
representa a forma do aparelho genital feminínó aberto.
A sua cabeça ..representa

o aparelho , sexual masculino.

O significado geral destes actos obsessivos é claro:
esta;:íjovem

sente uma

atracção

erótica

pelo pai.camas,

esse desejo sedu-la e assusta-a simultaneãmenie. Existe
uma ambivalência. Esta situa-se, evidentemente. ao nível
inconsciente, porque foi o recalcamento desse desejo que
provocou a neurose.«Nestesactos neuróticos, a jovem,
apesar do sofrimento, experimenta inconscientemente a
satisfação do seu desejo.
29

SÍNTESE DA OBRA

INTRODUÇÃO. À PSICANÁLISE FREUD

É a partir de exemplos semelhantese de todas as suas
observações

que

Freud

faz -surgir

um

certo

número

de

características gerais válidas para qualquer neurose.
1.: A fi)cação -num fragme?ão áo 'palmado constitui !m

traço comum a rodas as neuroses;iodo o neurótico fica
ligado, pela sua afectividade profundo, a .um.lmomento

às exigências dos desejos recalcados que exigem satisfação. Como a satisfação directa lhes é recusada pela censura, eles representam formas indirectas de satisfação,

ou satisfaçõesde substituição. Ou, noutros termos, um

do passado, geralmente da primeira .infância. .No caso da
jovem obcecada,. ela ficou ii.cada à fase. edipiana da .sua
evolução sexual (ver o capítulo V). A líbido dos neuróticos
foi definitivamente marcada por: :certos acontecimentos

desejo;lque não pede manifestar-se em ninguém faz-se
passar':por outra pessoa: ;-enganai'assim a vigilância da
censura, tal como um indivíduo se serviria de um passa-

de sedução sexual, muitas vezes.imaginária. n! qual.um

compromissos

dos pais desempenhaum papel fundamental. Em todo.o
caso, quando existe neuro;e,' ela já estava presente: q?lo
menos'em germe, num determinado momento da infância. Freud considera, portanto, uma experiência neurótica

cíi)io dê realidade).Mãs isto significa tambémque os

da sua vida sexualinfantil: por exemplo,por uma cena

da sexualidade infantil como uma conkiição fundamental
de toda a neurose.

Z. O significado dos sintomas e o seu v!!or simbólico
são sempre descotz;zecídos parca o doente. :Ele não.conse-

estabelecer a ligação entre o.acontecimento do passado .e o acto presente. Este simples facto, de que os sintomas
&

Temos, agora uma visão: mais nítida do modo como

os sintomas se formam. Constituem-separa-responder

têm

u;mal. coerência:; perfeita,;. um

encadeamento

significativo fora de qualquer intervenção da consciência
dos doentes,bastaria para.Freud poder provar a existência do inconsciente.

3. Assim que os processosinconscientessão trazidos
à consciênciaatravés da troca que se estabeleceentre o

doente e o:.analista -- desde que ol.doente consiga compreender, :'àão: ; sh intelectual;Dente,;,mas de .!!gl'modo
vivido,

o significado

dos seus sintomas

(cap.. Vll).{r

eles

desaparecem.Esta é a descoberta em que se baseia a cura
psicanalítit:a.l Trará-se de fortzar conic Sêres defermínações vindas do ínconscienfe.. Isto .significa, para Freu4,
«preencher

as lacunas da memória

dÕs doentes» (p=:264).

Com::efeito,uma outra característica comum a. todas as
neuroses é uma maior ou menor perturbação da memó-

ria, e contudo as passagens
da história individual que
são assim «esquecidas»
desempenhamum papel fundamental na formação dos sintomas. Este «esquecimento»
não é uma .lacuna.- provisória,

momentânea,

da memó-

ria: não se situa ao nível pré-consciente.
Incide:sobre
factos ou situ-açõesque o d(lente quer esconder.

porte falso para atravessaruma fronteira. Os sÍnfomas
são subsfífafos. Os substitutos:;:
são intermediáriosoü
: quem:servem

simultaneamente

ao incons-

ciente.{(atravessar;:a fronteira) e ao consciente (mostrar
o passaporte), à líbido (princípio de prazer) e ao eu (prin-

actos neuróticos apresentam um aspecto duplo, uma duplicidade: por um lado, exprimem 'aquilo que foi recalcado (no caso da jovem, cr.idesejo:'infantil
de ter rela-

ções sexuaiscom o pai que toma a forma extremamente
disfarçada

de uma identificação

parcial:lcom:.dele: . ã ca-

beça sobre a pequena almofada em losango); por outro,
exprimem aquilo que provocou o recalcamento(no caso
desta jovem,

a própria

intensidade

desse: desejo, a sua

ambivalência(receio de quebrar o vaso), o seu carácter
infantil,

inaceitável

para :o seu eu consciente

normas da moral e da sociedade).

sujeito

às

Não é de estranhar que a «satisfação»obtida graças
aos sintomas provoque sofrimento. Com efeito, há sofrimento porque existe um conflito. Esse conflito, que aliás
é sempre uma luta incerta, opõe as tendênciasdo eu,
que quer pâr-se de acordo coü a realidade( as:'regras
sociaise morais), e a líbido que apenassegueo prazer
em detrimento da realidade e até da cronologia, visto que
esta jovem permaneceu uma criançaldeicinco anos do
ponto .de vista da sua Vida sexual. O sofrimento do neurótico provém também da angústia: sempre que a líbido
não encontra uma saída directa (na sexualidatie normal),
transforma-seem angústia. Esta angústia é a projecção
no exterior do perigo representadopela líbido não utilizada, que ameaçaa existência do eu porque, a todo o momento, se arrisca a fazer «saltar» o ferrolho da censura.
Os sintomas destinam-se. pois, também, a disfarçar a angúsfía através da realização ilusória dos desejos da líbido.

INTRODUÇÃO À PSICANÁLISE FREUD

Assim, enquanto compromisso, eles enganam simultaneamente o eit e a líbido, cuja pressãoangustiante vêm ateuar
A primeira conclusãoque daqui resulta é a importância decisiva da sexualidade, e s(;bretudo, da sexualidade
infantil, na formação das neuroses. Veremos frequentemente a líbido, sob o efeito do recalcamento efectuar

uma marcha atrás, uma regressão,que Ihe permite regressar -- no plano. do sintoma. e dg imaginário -- a este
ou àquele estádio da sexualidade infantil: Vejamos o que
diz Freud: «Seja qual for o modo de.produção da doença,
os sintomas da neurose são fornecidos pela líbido, o que

pressupor um enorme dispêndio desta'última» (e. 365).
&outrós termos, mesmo quando uma neurose não é .à
partida

um problema

sexual, elt

acaba por vir
.sintoglas

mórbiSlos.

Por outro lado, uma enorme quantidade de energia libidinal é desperdiçada.

$

Mas a conclusão mais notável e mais convincente é
a de .que as operações do {nconscienfe são exacfamelfe
semelhantes n&s neuroses, nos sonhos e nos actos falhados. Os meios de escapar à censura são idênticos. Em todos essesprocessos,encontramos entre os sintomas neuróticos o des/ocamenfo:num outro casocitado por Freud,
a presença de uma mancha vermelha num tapete simbolizará.:uma mancha de sangue nos lençóis; ã condensação: várias imagens ou acçõespoderão ser fundidas numa
sógque exprime ao mesmo tampo váriosóel?mentos(os
relógios, iio caso da jovem, remetem simultaneamente
para os ciclos menstru;is e para as pulsaçõesdo clítoris).
O sintoma representa, deícerta forma, umajíntese, uma
abreviação dÓ conflito e do desejo latentes. Encontramos
na,pneu;osea figuração visualizada do sonho, o seu«arcaísmo» (situações

infantis),

e a riqueza

bolos.

AS ANOMALIAS DA VIDA QUOTIDIANA

a sê-!o

durante o sel desenvolvimento. Torna-se neurótico todo
aquele cujo eu já não consegue controlar a energia.sexual, que 'já só serve para produzir

111

dos seus sím-

Começando a sua /nfrodução à Psícaná/ise pelo estudo
dos «actos falhados», Freud renuncia ao espectacular.
Mas, sublinha ele, há coisas importantes e graves que só

se manifestam através de sinais muito discretos. Assim.
um criminoso geralmente não deixa a sua fotografia no ,
local do crime, mas, eventualmente, vestígios ínfimos. Na
análise psicológica, os pormenores não são de negligênciar; Freud nunca deixou de os assinalar minuciosamente.
Além disso, para ele, o que confere valor científico a um
estudo não é o seu objecto, mas o método. Aqui o objecto
é singelo, quase inefável, de tal forma se confunde com a
banalidade quotidiana.. Quem não conhece essas anomalias ':banais, ; essas falhas do comportamento habitual?
Saio de casa, esqueço-me das chaves. Esqueço-me por vá-

rias vezesde pâr no correio uma carta importante,ou
mesmo sem importância. Esqueço um encontro que, con-

tudo, marquei nessemesmo dia com um amigolvindo
de longe..Nojornal, ou num cartazpublicitário, leio uma
grotescaou misteriosa deformação do que lá está impresso -- sem qualquer ligação aparente com alguma
preocupação que me atormenta. Em vez de escrever a palavra em que estou a pensar, eis que a minha caneta desenha outra palavra. Porquê essae não outra? Por que razão esqueçoprecisamente esseencontro? A maior parte
das pessoas dirá: é o acaso. Outras procurarão explicações

mais elaboradas e invocarão determinadas causas. Se esqueci o meu encontro é porque estou cansadoou porque
outra coisa me veio distrair: não prestei atenção.
32

33

ÀS ANO.WAt/ÁS OA v/OÁ opor/n/AWÀ

INTRODUÇÃO À PSICANÁLISE FREUD

Mas todas estas teorias são insuficientes. A explicação
pelo acasonão é mais do que ulüa confissão de ignorân-

cia, anticientífica porque admite que existem acontecimentos sem causa. Quanto às explicações por causas psi-

cológicas, como a: fadiga, não são satisfatórias. Posso
perfeitamente cometer erros e te! esquecimentossem
estar cansado e, por outro lado, a fadiga ou a distracção
não explicam por que razão eu cometo precisamente este
erro, tenho esta distracção: porque esqueçoum determinado nome ém:vez de um outro? Não são causas mas,
quando

muito,

circunstâncias

favoráveis.

Numa

'outra

ceder a uma análise maisl ou menos longa. De qualquer
forma,.há sempre um sentido que provém sempre da intervenção de motivos ocultos: Assim, se não deitei a carta
no correio, é porque por qualquer razão (que, por vezes,
escondo a. mim próprio)

não quero que ela siga.

Mecanismodos actos falhados é técniclado análise
Um acto falhado é;. pois, um acto voluntário deformado por uma contra-vontade.Situa-seno ponto de en-

(;bra inteiramente dedicada aos actos falhados, A psÍcopafgZãgía.da vida q ofídíana, publicada em 1901,Freud

contro: na intersecção de duas intenções, uma das quais

ilaZ'a seguinte comparação: passeio de noite, sozinho, num

recalcada,o' acto voluntário não serial.perturbadopor

liigar deserto; vem um ladrão e rouba-meà carteira. Se

dissesse
que a solidãoe a escuridão
itie tirarama car-

teira, passaria por louco. E, contudo, é o mesmo género
de raciocínio.}qiie.faço quando digo que a fadiga me faz
cometerum erro de leitürã. :Aliás,não é uma causareal
e necessária,

pois

posso

também

renganar-me ! precisa-

mente quando:.redobro de atenção;.Em:;suma,estas:explicações não permitem, se se tratar por exemplo de um
lapso, saber põr que razão uma determinadapalavra me
ocorreu em :vez de üma outra.
Freud admite e demonstra que os actos falhados não
são gratuitos, arbitrários, acidentais, devidos a causasex-

teriores às nossasintenções,mas que têm um sentido.

Pretende assim dizer que cada um destes actos deve ser
considerado como «um acto psíquico completo, com o
seu objectivo próprio» (p. 24). Entes actos são motivados.
O seu ' sentido
-consciente

é :servir: uma intenção

: (por

isso

facilmente

latente,. quer:rpré-

acessível), -;quer

total-

é .consciente e.a outra latente.

É um «compromisso»

na

medida em que, se a contra-vontade fosse completamente

isso; se, pelo contrário, a contra-vontadepudesseexprimir-se claramente, seria abertamente manifestada em vez
da outra.; Ora, temos uma solução.inlçrmédia: a intenção recalcada

surge apenas ãiiãtéí'da

$êiiüíbação

que

provoca no acto voluntário. Recordemos um dos vários
exemplos::a senhora alpinista tinha a .intenção de dizer:

gostariade voltar para .caça,mas, seguindouma outra

intenção'latente, uma contra-vontade,teria querido falar
das suas calças molhadas. As duas expressões;«paracasa»
e «calças»,em alemão,nac;zHousee lrose, fundiram-se
no compromisso: nac;zBase.,Outros exemplos: o do presidenteque declara a sessãoencerrada,ou o da senhora
que diz que o marido pode comer «o que ela quiser»; nestas dois casos, a tendência recalcada ocupou o lugar.,da
intenção,:confessada.,

Há:\também

compromisso:porque

a

pessoamostra que quer e não quer dar plena satisfação
ãt tendência

recalcada. ;.De um modo

é preciso

geral, .para que haja

mente}inconsciente. Muitas vezes. esse sentido é muito
visível. Assim, «quandouma senhora conhecida pela sua
energia conta: O meu marido consultou um médico sobre
a dieta que devia seguir; o médico disse-lheque não precisava de dieta e que podia comer e beber o que ea qz{
lesse --- há aqui um lapso, evidentemente, mas que surge

acto falhado,

que haja recalcamento,

;superfi-

comoa expressão
indesmentível
de um programabem

clarar

definidor)>(p. 25). A intenção denunciadapelo lapso é
evidente: a penhora deseja impor ao seu Marido o seu
modo de ver, particularmente a sua concepçãode regime
alimentar. Mas, às vezes,pelo contrário, é necessáriopro-

mente qye gêesquecera de perguntar a Freud se devia fa(*) Zà psychopaf/zoZogie de Za víe quafidienfze,
thêque Payot, p. 238.

34

35

cial ou profundo. :A intepçêQ recalcada vinga-se através
dç) actor :falhada;

e o«regresso

tiõ''iêêãlcado,

que per-

turoa a int'enção consciente. Freud .cita noutra obra (:) o
caso de um

doente ao qual .proibiu

que telefonasse

à

amante,com quem queria romper. Aconselhara-oa dea ruptura

por escrito. O .doente lembra-se brusca-

Petit Biblio-

INTRODUÇÃO À PSICANÁLISE FREUD

lar dele nessacarta. Decidetelefonar a Freud, mas enga-

4S ANOMÀZ/AS DA y/DA aPOr/D/.4NA

na-se no número e aparece-lhe a pessoa com quem não
devia falará. :«3*;.: :.
;; ,,:. :; .(
Um outro tipo de acto' falhado, o esquecimento de

Ihado.em. tantos elementos quanto possível e em pedir
ao indivíduo que diga que recordação,ideia ou imagem
associa geralmente a cada um dos elementos. É aqui que

palavras é muitas vezesprovocado não por uma contravontade, mas, o que é análogo, por uma recçirdaçãg.,dçsagradávçl.Esquecemosentão uma palavra porque ela
nos recorda qualquer coisa que provocou um sentimento

:urge o fenómeno (destinado a desempenhar um' papel
fundamental na cura psicanalítica) da.!eglglê8c@:: A pes-

doloroso (mesmo através de uma .associação de ideias

muito longínqua). Assim Freud conta, na PsÍcopafo/agia
da vida quoflãíana,que tinha esquecidoo nome de uma
estância da Riviera italiana onde passara férias várias
vezes: o seu nome, Nervi, estava inconscientemente associado no seu espírito às doençasnervosas,objecto das
suas constantes preocupações. O esquecimento; deve-se
por vezesa circunstâncias próximas. Um jovem não consegueencontrar a palavra «aliquis» num verso de Virgílio : que sempre soubera:.de cor. A palavra,. decomposta
em a-liquis;' evoca a ideia de líquido. Freud pede ao

jovem que faça todas as associaçõesde ideias que ]he
vierem espontaneamente * a partir dessa palavra. Pensa

primeiro num Santo, sacrificado quando era criança,
depois em S. Januário, cujo sangue se liquefaz miraculosamente na sua urna, mas poz vezes esse milagre
não. se":produz, o que assusta as pessoas. Finalmente,
pensa numa amiga italiana, da parte de quem receia receber uma notícia desagradável. Freud descobre que o
jovem(que o confessa'com espanto!) receia receber a
notícia de que a jovem teve uma falha na menstruação.
Esse receio explica todas as associaçõesde ideias e a impossibilidade de se lembrar da palavra alíqüís.
Este último exemplo mostra já claramente a técnica
de análise que vai ser a do sonho e das neuroses.Com
efeito, Freud insiste no facto de que a interpretação dos
actos falhados constitui um «moEleloem miniatura» da
investigação psicanalítica (p. 36).'Quando:.o sentido não
é evidente e quando ele.não é percebidopelo próprio
autor do lapso'(quepode reconhecerfacilmàite a origem
do seu lapso, visto que a intenção recalcadanem sempre
o é inconscientemente e, por vezes,aflora à consciência),
é necessáriorecorrer ao mé/ado(que seria igualmente
utilizado para analisar sonhos e neuroses) .dai assocla-

çêl;x..Zlwrel.
Este método consisteem decompõíãããii'lÊà3Ó

soa interrogada terá uma tendência iiiÍÕliiiiiária em' esconder o segredo do seu acto falhado: dirá que as coisas
em que pensa são absurdas, sem qualquer ralação com o
acto em questão: e se a intenção oculta, a intenção recalcada.e perturbadora é descoberta, ela recusará por vezes
admitir a .interpretação que Ihe é proposta.
Seja qual f(ir a situação,

os acilo!.:f41hados

e?çpEjl1lçm

se!!!pg elçmeQtos compZéfaméíiiÍê.líêêaliãtiõi=A;'ãêÍÕÊ
iiiãêiõêi'qüe sofreiiíbbédéõêih ãR'iiiesmas leis que.vão ser
reveladas no estudo dos sonhos.

lv

OS SONHOS E A SUA INTERPRETAÇÃO
A hipótese fundamental de Freud sobre o, sonho é

simples:' o sonho é um exutório do inconsciente: - «Todo
o psíquico reprimido aparece no sonho». Interpretar os

sonhossigniõca descobrir o seu sentido em relação a
um pensamento inconsciente. Hoje, é difícil avaliar a ousadia de Freud neste campo. Tratar o sonho como um
verdadeiro pensamento chocava tanto a ciência como. o
bom senso,que estavam de acordo em relegar o sonho
para o domínio do absurdo, do irracional ou do não:significativo. Aliás, como seria possível encontrar a unidade
dessefenómeno tão diverso quanto desconcertante,visto
que há sonhos longos, outros muito curtos, sonhos coe-

rentes e claros e outros ininteligíveis?.Mas, para Freud,

a diversidade ou a confusão dos sonhos não constituía
uma objecção suficiente para os excluir;.da investigação
científica. ;Q..g!!q.!gpstit
Çlbien@.

É'ãÊ&iínia'-ãdüí6i;"ã;"i;;êã ãl;';Z;;;i;ã''ÜI

como eles são e analisa-los sem mistificação.
Técnica da interpretação
Para interpretar um acto falhado -(es(juecimento,
lapso), perguntava-seao autor desse acto falhado como é
qiie tinbla acabado por esquecer essapalavra, como tinha
pronunciado uma palavra em vez de outra. Para o sonho,
procede-se do mesmo:modo: pergunta-se ao autor:'do
sonho aquilo que esse sonho Ihe evoca espontaneamente.

\
INTRODUÇÃOÀ PSICANÁLISE FliEUD

OSSINHOS

Mas .um.spnllQ..dlstingpe:$e..dg..!4111.Bato !jalbadQ pela mul!jpliçidadç

.do$. seus. Qlemeplos.

Assim, a técnica

Função do sonho o sonho é o guardião do sono

{'

de iiitêi:-

pretação consiste em decompor o sonho em todos os

Para Freud, o sonho não tem apenas um significado
na vida psíquica, mas sobretudo itma função propriamente psicológica. Há, evidentemente, uma' relação en-

seus elementos. Cada um deles deverá ser separadamente

submetido à análise. Por exemplo: sonho que viajo de
avião, que estou sentadoao lado de um amigo que me
conta uma história, etc. É preciso encontrar o significado

tre o sonhoe o sono.Antesda psicanálise,não se pensava que o sonho pudesse ter uma função, um papel a

desempenharem ralaçãoao sono. Freud é o primeiro a

do elemento «viagem», «avião», «amigo», etc., tomando-os

formular a hipótese segundo a qual o sonho serve para
proteger o sono contra as excitações que tenderiam a interrompê-lo. As excitações mais fartei são as excitações
interiores, e sobretudo aquelas que provêm dos desejos

isoladamente e deixando aparecer as imagens, as palavras ou as ideias que surgirão por associaçãoem torno
de cada elemento. A J.çgr:L8lQdamentj4;l
consiste sobretudo em não se..preocupar-cQiB.$êber.se..êg..gê$Qçlêçgçs
que vão suréindãlão

absurdas ,g..dç$bc4das,

insatisfeitos,

A este nível, compreende-sepor que razão é indiferente..que o sonho seja claro. ou .confuso: O que se visa
restaurar não é o sonho em si, Mas aquilo de que ele é a
manifestação.'' Por isso, as' recordações suscitadas pelo
sonho contam mais do que o lseu conteúdo explícito.
Entre as associaçõesde ideias que nascem quando
analisamos os nossos sonhos ou os dos outros, sentimonos tentados a escolher, a rejeitar uma parte que nos parece incoerente, sem qualquer relação com o sonho, ou

pelo

deseljoâ..não

Significado do sonho: ele é a realização
(mais

incons-

A reacçãoque consisteem rejeitar uma parte das

'os nossos

da néceisjd4gç:4çdormir

psicológico, todas as assoçjaçõçg.sãQ
cõináiidãdas'

i;reud,

per!ador tocar. Assim Freud pode afirmar:
«Todos . os
:onhS?!.sãg,..!onhos de.comodidadçlei+ós
para:pos permítii'lõiitinuar
a don$ir;j©. liÓn;zõ:êl.Ó.gç4àrcZíãQ.ÉíQ:libno
q.@ãã 0 5eu
tarbàdor (:):»...]'.odo. g.$Qiiho provém,"pois,

desagradávelde exprimir. Ora, a experiênciada psicanálise revela que são precisamenteq.! !dçias gue.pretendíaipQ!!.çjg$ar, recalcar, que ç$4ãomail próximas da verdade inconsciente a descobria'Pai:Z'Frl;iiã:Tuá"ãêiidita
ciente
e

para

perturbações, fazendo-as desempenhar um papel numa
espécie de pequeno palco. Assim, aquele que no seu sonho
vê cair uma pilha de pratos, acorda e oiive então o des-

acesso ao inconsciente.

Ugoro?amegte ..determinadas,

pois,

adormçççEnl.jljlLa®gnte
com a nossa'êõüÉãênãá3s ;a
iíhõi"iêiiiem, :decerto'iiiõao, para fazer Qecenário a todas as perturbações. Mas o sonho transforma todas as

ou p fusí-

veis e pertinentes,justas ou erradas,coerentesou incoerentes. Como sempre, uma certa supressãodos juízos,
uma certa «neutralidade»é uma condiçãonecessáriado

iiiiin'determinismo

E A SUAINTERPRETAÇÃO

P

ou menos disfarçada)

de um desejo recalcado

Quando analisamos os sonhos, apercebemo-nos de que
por detrás de todos os vestígios de' recordações que eles
evocam se encontra um desejo escondido, que normalmente é estranho à vida desperta daquele qüe sonha. É
no caso dos sonhos das crianças que Ó significado do sonho surge de um modo mais claro. Não é necessário
aplicar uma determinada técnica, é inútil interrogar uma
crlênçal.Q..gonbQ.explica:se.sempre.

ideias que;surgem é uma reacção que :tem os ;eus motivos inconscientes e;.a que Freud chama Zçâ61ência. A re-

PQi:.um acç>zltççimglito.

gyS..j! produzia:lBg...véspera.
Por exemplo: uma raparigüihhà'fez'a"Êtia't)i'imeira viagem de bal:co e sente-sétão

Êistêncía leva-nos à construir argumentos i;ãi:ã''demonstrar o absurdo das explicações referentes ao; sonhosl Esta
resistência mais ou menos consciente que se opõe a todas
as manifestaçõesdo inconsciente é o efeito da censura.

feliz que chora ao abandona-io;na noite seguintesonha
(') Z'ínferpréfafions

91

des rêdes, P. U. F., p. 205

SBD /FFLCH
INTRODUÇÃO À PSICANÁLISE FREUD

OS SONHOS E A SUA INTERPRETAÇÃO

berdadede um instinto sexual.que não conhecelimites,

que viaja de barco. .PE.sonhos das Crianças não so111çp}
(jualg!!!;EdeJJQt. plaçãâ''ri:ãzeií'ã'iêãnizaçao uneçia,'êm-

que escolhe;até de pl'eferência oi objectos proibidos,. comete o incesto sob todas as formas. Finalmente, o incons-

oora alucinatória, de um desejo.
Para os adultos, pelo contrário, é necessáriointroduzir uma distinção

importante;

ciente exprimeuma agressividade,um ódio e desejosde
vingançamuito violentos contra as pessoasque na vida
mais amamos.

por um lado, o «:çgntS:ydo

iüalljllgs.todo sonho;, isto é, daquilo que o' sõiihií'h(ib
Eõiiiã»,.a história ou a cena que se desenrolae, por outro, aquilo a que Freud chama as <(j4çiaslatentes dg:!gnhm , bu seja,' «o que está oculto»,'d"têl;dãiiêüo-selüitFo
(p. 106).Os desejosque não são aceitesem si mesmos
devido à censura figuram

de disfarces.

Qg.Jesçjpglççêlçêdl29=:.dÊ$dÊ..g$
(!ê..uljâpçlê.que

por assim"bdizer,:'indepi;ndentes.
O material queelesen-

contram logo ao chegar ao pré-consciente são as recordações do diã anterior' Os desejos recalcados apoderam-se
alassobrevivências da vésperas,reelaboram-nos e .formam
assim um novo material.: É uma regra geral que em todo
o sonho se encontra.:un];.eleinemta.pel!]..gil!;!Léle.ãe..liga.a

.yiha=iüptêisão/&a vé$pÉlê:.Mas Freud mostra que um
desejo (lõiisciêiiííe.

por 'exemplo,

um

problema

não re-

solvido, uma preocupaçãoda véspera,só pode provocar
um sonho se estiver associadaa um desejoinconsciente

A elaboração do sonho

que despertou e que vai reforçar. SÓo desejo inconsciente
provoca o sonho.'Por isso, não ;záson;zossem sígní/ícado.
Todos os sonhos traduzem profundamente o inconsciente.

r

Trata-ge, por assim dizer, de definir o segredo de fabrico que 'se;ve para todo o sonho. Pelo disfarce, os desejos revestem-se de uma espécie de máscara que. lhes

Geralmente, .é-d4$.$QbrGSliyêQçiRS çljWrnas.rtl-entes significativas (recordações senLjmpoUêpçia
e auQ..JlãQJ.êm.o
carácter ae"aéÉejt)$):jade.p! .4çlçjgg..!g.gçE"enLçoWO
se
se tratasÉF di'üma
=çê2g pãrÊífõtihãF
o conteúdo \mani-

permite atravessar a barreira da censura sem se deixarem apanhar. É como se alguém que estivesseproibido
de entoar nuH país, utilizasse um passaporte falso, adquirisse"uma identidade falsa, pusesseum bigode ou pintasse o cabelo para não ser reconhecido. Os desejos censurados são aqueles que o sonhador, no seu estado de
indecentes

tão na

censura, os desejos surgem do inconsciente e tornam-se,

no sonho sob toda a espécie

.preender o mççg;1llj$!nl2.Aas çljgrmpçõgg,.das transforma3õê;i'õÕêl:idas pêlo iiiêonsciente. Freud. chama a este trabalho a .Êlêbglgçãg...dQ.ganho.

afasta por os ;achar

ó iüçgyâçlçlBg.puilçê..ç$qgace-

ãêneii'doi:'sÕiiliõs. Tendãlõ';alia'diminuído a força da

Para çgl11i11ççlildQJ=.a:..bgêçêgentre o conteúdo manifesto de iim sonho e as idéiãglatentes,
é necessário.Êç?ig-

vigília,

/ USP

e reprováveis

do

festo do sonho: é semprepara escaparao controlo da
censura. De qualquer

forma

a elêbg11êç$Q..dQ..SWljliotenllç

a dar ulng:..êpg:rêDçjg..!pofeiBiva aõi iêitos .utiliiãtlõí'='ã
iõi;ríãr a expressãoao';õiil;õ'iãõ anódina quando possível,
para faciljlêt..3:p4s®geD..4gs desejos.
luas quais sao os processos"Utilizados pelo inconsciente nesta elaboração?

+

pontosde vista moral, estético e social..A..EÇB$ylr4.
é em
nós uma instânciacrítica, de. interdição,forma©ãpela
educação.gue recebemos e pelas regras

ensüíããiiiXVêhõgãijuiãu
hém'Tfãçõr

nem co;tra

os 'aégJQ$..ÇEwuraaos.

 O trabalho do sonho: condensa.ção,
deslocamento
;

\.,onsiata

apenas que esses desejos.sãõ considerados como maus

do ponto'.=de
vÍsfa da censura.Mas acrescentaque o eu
do :sonhador se caracteriza geralmente por «um egoísmo

4

figumção; elaboração secundada

Primeiro, a çç)114nsaçãQ.O trabalho do sonho efectua

sem limites e sem escrúpulos». «Aliás, não existe sonho
em que o eu do sonhadornão desempenhe
o papel principal». Por outro lado, ele constata que no sonho há a li-

q!!ç!!g pl491çrg..4g.jBêgeiii'aõ conteúdo objectivo eSl9q!!e
uma cnversiaaaemuito maior de ideias..!RteDtes.Assim,

42

43

uma espécie díwplEe$$ag

que faz com quem:um .pç=

OS SONHOS E A SUA INTERPRETAÇAd

INTRODUÇÃO À PSICANÁLISE FREUD
/

o sonho apresenta numa só pessoacaracterísticas que pertencem a várias pessoas.Outro exemplo: o mar significa

simultaneamenteo;:elementomarítimo e a mãe. -

Um outro processo é o 4çs/ocametz(o. Já aludimos a
ele. Trata-se de uma operação de substituição pela qual o
jl:!çnesse-se-.dçdQca 4qWeplêperlto$..!pllgDgBçeE.pêlo
elçgleptog.jpdifç11qptes:"O quã é.êxteriol:êãcessório'é colocado no centro e'time-versa.A.possibilidade de uma tal

transferênciaassentano facto dé que a energiapsíquica
inconscientenão é detida pelos constrangimentose divisões lógicas: pode deslizar.livremente das representações importantes para as representações pouco intensas,

o que pareceriaconstituir para o pensamentoconsciente
uma falha de raciocínio. Grgçgx gQ.dç$!ocameBtQ,.p..dsqejo .adquire equilalçQtç$ Bíübõriõõg transpõe:iê para as
iniagenê;'expriihê:bé põijlalusõeg;'sempre para escapar à

uma coerênciae unidade. Para isso preencheas lacunas,
atenua as incoerências para obter uma fachada harmoniosa. Assim, o sonho perde um pouco a sua aparência
de absurdo.
Todavia, o trabalho de elaboração não faz tudo. Não
pode fabricar um discurso nem fazer um cálculo. Trata-se
geralmente de elementos(cálculos, discursos) ouvidos ou
feitos na véspera e simplesmente relatados. Condensar,
deslocar, faze; uma representação plástica, são as acçivi:
dades psíquicas que nÕsrevelam directamente o funcionamento

do

inconsciente.

f

.'/

A elaboraçãofeita sob a pressãoda censura,gão é
a.única .explicação çla deformação do sonho..Após múltiplas análises, Ereud.-conseguiu.pâr. em. evidência-um-.númçEQ.consjderl4l:g!.dQJrêd!!çõçt constantes.é..:jDvariáveis

vigilância'da censura'
Note-se que os dois processos de que se serve o inconsciente são estruturas da linguagem que ..têm um
nome na retórica e na estilística: a.condensação:-:é uma
metonímia(a
parte exprime o 'toda;"êõiiíõZquando se

O simbolismo dos sonhos
Um

(gã;!êiê;õ

aqui,

.com

efeito,

uma

relaçêg

.ÇQDs-

taq!gt .põi'tãhto, independente deste ou dacÍüêlê'êi;iiiêxto

ãtz «vêlã; por ;navio»,'ou «pâr-seao volante»'por «sair
de carro»); g...desbcamento
é uma metáfora(uma ideia

individual, entre pensamentoinconscientee a sua mani-

abstracta, como por exetiiiplõ'iülti;ãpassãí'õs concorrentes»,que é substituído por uma imagem desportiva «chegar à meta em primeiro lugar».

preseqllgçãosimbólica. São eles o corpo humano,os

A .Íigz4zgção,
a forma mais importante do trabalho de

elaboração,«çg!!!i!!g.npin4Jr411$fQtDaçãQ..d&.idêüas-çH;
imagens visuãiq (p i59)Ílrata-se de uma espécie de eiF

êéõãÇao
ou
trabalho

atizaçãoou, ,comodiz Fréud, de um

semelhante à. transposição de um :.artigo de

fundo político numa série de ilustrações.Ora, nessatransposição,certos elementoslógicos do texto(ligações como
«porque»)não poderiam ser' traduzidos em iinãgens. Por
outro lado, como o inconsciente desconheceas categorias
de oposiçãoe de contradição, o sonho ignora o anão».
Muitas vezes,reúne os contrários num mesmo objecto.
A única relação lógica que este pensamento do conho
conhece é a semelhança, a assimilação, o «assim como,
assim».

Finalmente, o quarto processo, a .eZ4êergç4eijeçilízld4consçjentç. Com efeito, a éõnsciência
percebe o sonha, procura depois encontrar-lhe
ria, é um produto.do

festação no sonha: Esta relação é uma relação de comparação. Poucos objectos ou situações têm no sonho re-

pais, filhos, irmãos, irmãs:' o nascimento'.a morte ' a nu.
Elçz.Os pais são simbolizados pelo re{ e pela rainha; os
filhos, irmãos e irmãs, são representadosmais cruelmente
por pequenos animais. ou bichos repagnanfes. Tudo o
que se relaciona com a água simboliza o nascimento.A
morre iminente é. substituída pela parfída ou' por uma
viagem de comboio;

a nudez p(;r /aros ou zzni/omzes.

Mas é no plano da .vida iexiíal que o simbolismo é
mais rico e mais variado. «A maio!!...parte..dg$.síDibolos
nq.s.yglg..$êgjÍ!-íbgbs.!ç;üã$;'(i;nl3ê)'a'órfão-sêGal
dli'hoiãêm [em um grande nliinero de símbolos:em primej!o lugar, a! substituições simbólicas que se Ihe assemelhem pela. forma

(serpentes, peões, (Lu/es, árl.'ares.

qAapé ãe ceava, etcl); ém seguia, os objectclsquá pc'dem, .como o pénis, penetrar e até mesmo ferir(Zámitzas,
espada, /amai, mas 'também armas de fogo, como pisfoZas e espitzgczrdm). Nos pesadelos das raparigas surge,

OSSINHOS

INTRODUÇÃO À PSICANÁLISE FREUD

muitas vezes, uma perseguição de um homem armado
com tina faca ou uma pistola. Os sonhos de voo simbolizam geralmente a erecção ou a .excitação sexual..O ór-

gão genital da:mulher iem igualmente.um grandenú-

;mero'de símbolos: são os objectos que formam uma 'cavidade na qual se pode guardar qualquer coisa, objectos
como mí?zá, fossa;, caverna, vasos, garra/m, cqüa.s.de
rodas os ./eiríos, co/res, principalmente co/res de jóias,
baz2s,. sczcosl'
A própria união :sexual é simbolizada

por todas as

espéciesde passatempos,em especialo de toca! piano,
mas também por movimentos rãmicos como a dança, a
eqz{íaçãó, beiii como por acidentesliviolento?. como: por
exemplo ser esmagado por um automóvel.

O:.;desZÍzar. o

arranõzzr de um ramo'j: ;ãd representações da masturbação. A extracção de afazdente ê um símbolo da castração
(ver o capítulo

seguinte).

Muitos outros símbolossão inventariadospor Freud,
sobretudo na sua grande obra sobre a .rnferprkfação dos
sonhos.

Assim,

a simbolização

ajuda

a disfarçar

o .desejo, a

tornar o conteúdo mailifesti) misterioso,.e incompreensível

nem todos

os .sonhQg.]êO:.pêra

a

p$!çqB41$çjppa..$jgnj$êã€1ã(i'ioiiiãl'Ãlduns
sonhos "ii:ã:
luzem necessidàãéi"iiiiiüã
es, como : a fome e l .a
os s(anhos mt4111o
deformados

jovem

sonha qui's'afrat'essa;qo

O: símbolo

«lustro,

da saa se-

-- Um homem viaja de comboio. O comboio pára no
meio do campo. Pensa que se trata de um acidente, qae
é preciso fugir; atravessa:todos os compartimentos do
comboio e t;lata todas as pessoasque encontra: conde
for, mecânico,

efc.

A isto associa-se a recordação de uma história

con-

tada por um amigo. Um louco é transportado num compartimento reservadode um comboio italiano, mas, por
distracção, tinham deixado entrar um passageiro para o
mesmo compartimento.

O louco matou...o passageiro.

O

sonhador identifica-se, portant(i, com o louco e justifica
o seu acto pela representaçãoobsessiva,que de vez em
quando o atormenta, de que deve'<.suprimir todas as testemunhas>>.
Mas encontra depois uma motivação melhor,
que constitui

o ponto de partida

do. .sonho. Na véspera,

nele, ficaria.:realmente

louco

se tivesse casado

com ela. Isto significa que estava tão inseguro dela que
teria sido obrigado a matar todos os que encontrasseno
caminho,pois teria ciúmesde toda a gente:.. O facto de
atravessar uma série de salas (aqui carruagens) 'simbo-

sa/ão

entre duas estações.Uma jovem senhora que se encon-

do,seu apartamento e bate com (i cabeça no lustre, daí
resta/fancZoma ferida que sangra».As perguntas fazem
surgir uma associaçãocuriosa: «uma cabeçacalva como
um'travesseiro)>.

da gaveta

que

servem para exprimir. desejos sucuais:
-- Uma mulher

.«está díanfe

liza o casamento.
A propósito da paragem do comboio em pleno campo
e do medo de um acidente, ele conta que um dia em que,
de facto, viajava de comboio, este parava : subitamente

sede,outros o desej(i de viajar, a necessidadede liberdade, etc.(São $obreiudo

jovem

.P ]76

atingir

Freud insiste no facto de,que, contrariamentea um
difundido,

mesma

cretária, cujo conteúdo the é de tat modo familiar que
e/a ímed afamenfe se apercebe de que alguém /;ze.mexeu.
A gaveta da secretária é, como qualquer gaveta, caixa ou
baú, a representaçãosimbólica do órgão sexual da mulher. Ela sabe que as marcas das.relaçõessexuais (e, segundo acredita, do contacto físico) são fáceis de reconhecer e durante muito tempo ela receavaessa prova»

viu a rapariga com quem ia casar, mas de quem se afasUra por ciúmes. Dada a intensidade que o ciúme pode

Exemplos de sonhos,com a respectiva análise
erro .muito

--A

E A SUAINTERPRETAÇÃO

designa o:;órgão se-

xual masculino. Deste modo, a rapariga exprime no:lseu
sonho a convicção de que as relações sexuais provocam
hemorragias (menstruação) .(p. 176).

trava a seu lado declara que provavelmente.:vaí
haver

um choque com outro comboio e que, nessecaso, a primeira precaução a tomar é levantar as pernas. Este «levantar as pernas>,desempenhoutambém um papel,nos
inúmeros passeiose excursõesao campo que fizera com
a rapariga, na época em que eram felizes. Nova prova de
que seria preciso estar louco para casar com ela actual47

INTRODUÇÃO À PSICANÁLISE FREUD

OS SONHOS E A SUAINTERPRETAÇÃO

mente. E, contudo, o conhecimento que eu tinha da situação permite-me afirmar que o desejo de cometer essa
loucura

não deixava de persistir

nele»'(pp.

sozinha o elemento perturbador, prefere acordar aquele
que dorme.

Freud mostra assim que o pesadelo não contradiz

182-183).

a sua teoria.
Uma objecção:

os. pesadelos

Sonho, inconmiente, neurose

A principal objecção à teoria freudiana do sonho-realização de desejosé a seguinte: como explicar os sonhos
de conteúdo doloroso, nomeadamente os pesada/os?
É preciso,

primeiro,

distinguir

os desejos

!atentes

(os

verdadeiros) dos desejdg"iêãliiãdõgiíõ'i®!jê:jlõanifésto,
como mostra o exemplo"iêtii=adoda'/üiêrprefaçãd'Zós
son;zos(p. 133). Uma senhora sonha que, querendo dar
um jantar, não pode ir às compras porque é domingo,
nem;.telefonar aos comerciantesporque o seu telefone
está avariado. Tem a sensaçãodolorosa de ter de renunciar ao seu projecto.. Ora, a análise descobre que uma

amiga que$deveriaser convidadapara essejantar é
muito apreciada pelo marido da senhora que teve o so-

nho. Ora, essa amiga é magra e o seu marido gosta das
mulheres bem nutridas. A penhora, em vez de ier a sua

rival bem nutrida e ainda mais sedutorapara o seu
marido, prefere não poder dar o jantar. ,Alg!!p$.gQlüos
poÉjenlle1lizqr
ciência,

desçjg! êDligQ$, desapareãdõs da coãk-

'ihlãg"ãtiê-o-inêõiisciente

reteve.

Uma

mãe sonha

que a filha de 15 anos,de quem gosta muito, está morta,
estendida num caixão. Antes do nascimento da filha, ela
tinha querido abortar: o sonho realizavaum desejo muito
antigo, actualmente ultrapassado.
Segunda.explicação: constata-se muitas vezes que um

pesadeloé a reglizaçãQ.trancae nãg etQrmzldgclg.tlBI
desÊjg !ecêlçaiclõ:À preseiiêã'da
ã-sentido
$rofuiídã:veremos no capítulo Vly-4uá ée>sente no pesadelo é a angústia perante a força dos desejosque ultrapas-

saram a censura.Zl1lA
angústiaHue acompanhaesta realizaçãotoma o lugar da censura%J(p.
201).O que vale para
os pesadelos sem deformação'Vale também para os que

sofreram uma deformaçãoparcial. Em gerall o pesadelo
provoca o despertar; o sono é interrompido antas que o
desejo recalcado tenha podido realizar-se, apesar da censura. Neste caso, o sonho falhou na lsua função de guardião do sono: a sentinela da noite, incapaz de dominar
48

Em conclusão,o sonho revelou uma das características essenciais

do pensamento

inconsciente,

e que é

aquilo a que Freud chama na MerapsÍco/agia(p. 129)uma
«grande mobilidade de investimento» da energia psíquica. Graças ao processo do des/ocamenfo, uma representação pode passar a sua carga psíquica a uma outra,
e graças ao processo de condensação,ela pode apoderar-se da carga de várias outras. Estes progressos explicam a semeliiança entre o sonho e o jogo de palavras.

Freud cita dois exemplos (p. 220 e 2211):
Uma rapariga
cujo pai morrera vê-o em sonhos a anunciar as heras
de quarto em quarto de hora. Ela própria interpreta este
sonho como sendo a expressão da preocupação de pontualidade do seu pai. Mas ela recorda-setambém de ter
assistido na véspera a uma conversa sobre psicologia, na
qual um dos progenitores tinha dito: «O homem primitivo
(der Uhrmensch) subsiste em todos nós». Ela fez então sobreviver o pai em sonhos como o Uhrmensch, que significa

o «homemdas horas»l Há aqui um deslocamentoe condensação. Outro exemplo: um sonho que Alexandre
Magno teria tido. Quando cercava a cidade de Tiro, sonhou com um sátiro a dançar. Um adivinho, traduziu o

sonho decompondo a palavra «satyros»: sa-- Tyros
(atiro
é tua). E o rei acabou por conquistar a cidade
le Tiro

Por outro lado, os processosinconscientesestão fora
do tempo. Não se subiÚeteD,.à.Ql:ãêiõllêfõãÕlégica: as impressões e'õg""dégéjiõi'dêlnfância
podem 'i)rõvocar sonhos de adulto. Os acontecimentos passados subsistem

intactos: é o caso da senhora que sonha com a morte da

filha. Enfim, como vimos, o inconsciente não conhece
çgntr4dição.nem dúvida-nem.negação.

Fínalmentê o sonho substitui' ã''iêalidade exterior
pela realidade psíquica, do inconsciente. Este prossegue
infatigavelmente a realização dos desejos e regi-se exélu-

INTRODUÇÃO À PSICANÁLISE FREUD

sivamente pelo princípio do prazer. O sonho representa
uma

«alteração

(passageira)

das relações

que normal-

menteexistementre as diferentesforças da vida psí-

quica» (p. 224). A censura, que mantém o recalcamento,
é ultrapassadaou vencida.A alucinaçãosubstitui a realidade exterior. A angústia é ameaçadora. Ora, uma definição deste tipo (a quebra do equilíbrio

das relações en-

tre as principais forças psíquicas) também se aplica à

neurose. Mas, para abordar este novo campo, vai ser necessário ter em conta as descobertas psícanalíticas referentes à evolução sexual do homem.

V. A VIDA SEXUAL
De facto, $ó..PQdenD&.çoJBpreender-a.:ideia.fiudamental de Freud.segunda.a.qual.os.sintomas.
neuróticos-.de:
gêfüpenham:3'papel

de sc!!ÊEÍgções..s«&âr!!t ripas 4os-de,

li(;;ã:'iexaaii'r e ãZ21Zídór';ê'nos lt%QEçlêlBgg.Jãç!..dgnifié?lçjdj3a:iji4nçÕêjj3êleiià!;.quQ..ããõ.é.«nem.puramente.. psíquica:.BeQ..jjüiÍã®çqlç-fÍSiCa» (p. 365). Como vimos, a

sexualidade''ê'lama totalidade dinâmica que penetra totalmente o ser humano e que integra todos os elementos
que o compõem. Não se limita nem à função de reprodução, nem ao prazer dos órgãos genitais no:.coito, nem às
diferenças entre os sexos, nem'às características de in-

dependência
ou de secretismoque a cultura atribui ao
que é sexual.
A psicanálise encontra a prova disso na existência de

práticas sexuais ditas perversasem relação à sexuali.
Jade normal. Assim, sentir apenasdesejo pelas pessoas

do seu próprio sexo é uma perversão,sem que para
Freud esta palavra implique a-mínima reprovaçãomo-

:tgl(é.gB.aesvEia-ew..{çlêçãa.à..!ienila-.s9xgal). Mas npo se

pode alzer que as perversõesnão pertencemà vida sexual. E, no entanto: a função de reprodução,o fim normal da sexualidade,ou seja, ó coito heterosséxual,
não
entram na sua definição.
As perversões

facto

sençjal

INTRODUÇÃO À PSICANÁLISE FREUD

A V/DA SEXUAL

dê..êçxtiali(!açlç,. igtq..%..ê..nDiãa.-dos--órgãos...genitais--de
iêiõ oposto e evideiiiemente, de rç11qnciarem..à..prgcFia.çãa;;.Uma -definição"deste'njia' alãiÊã'êilttãótaiiiariamente

o domínio da perversão, visto que uma actividade sexual
é considerada perversa quando procura o prazer por um

meio estranhoaos órgãossexuaisdo parceiro de sexo
oposto. Mas, neste caso, o que é que não é perverso? Com
efeito, o beijo entra nesta definição da perversão.IÉ.por
ipso.que.Freud.admite.que..ê..sexyal+4q:dg..é

fund41nentãl

e

primitivaglç!$ç ,peryçrsal.só..ge tõfõg319rln41. ç111.çpQseiluêüéia : de . reéaicainã.tos e ihHíêõêj3iiê-selràdüãêm
àdlongo do. $eq.4esenvolYiuento. A..!)[igEHj:jlê$Wrversõeg'Temo!!!ê...àl. sexualidade.jDfanlÊ...g]4g...é-nQçgs$êNanü$tE$ervçr$gun4..Nçdiçlg ..çm.quç..ê.lipi1lHêdg..sexual
e$c4plê..à.criança.Encontramos já todas as possibilidades

de'perversão na criança. Mas nela existe perversão em
sentido lato, teórico e geral, como quando aí incluímos
o beijo. As verdadeiras perversões são desvios mórbidos,
em que toda a vida sexual Formal é afastada.
Freud

distingue

as perversões

que .respeitam. ao ob-

/echosexta/, ou seja, à pessoaque exerceuma atracção
sexual, e as que respeitam ao /ím sexnaZ,à natureza do
acto que substitui o coito:heterossexual(p. 285).A mais
importante das perversões que dizem respeito ao objecto
sexual é a homossexualidade. A psicanálise mostra que,
na maior parte das vezes, a homossexualidade se forma na
primeira infância. A criança sente uma grande atracção
erótica pela mãe, que, ou é uma mulher viril, QUuma mulher só, estando o pai ausente. Este amor pela mãe é recalcado, e o rapazinho vai tomar. então a sua .própria
pessoacomo o ideal das suas escolhasamorosas. Ele quer,
realmente, amar alguém como ele próprio, um rapazinho
como a sua mãe amou. Identifica-se com a mãe. Foge das

mulheresque o podiam tomar infiel à mãe. Com excepção da escolha do objecto, os homossexuaiscomportamse em relação ao ser amado da mesma forma que os heterossexuais.
Mas passa-se o contrário

com os perversos: que so-

frem um desvio em relação ao fim sexta/. Para o homem
normal, a sexualidade do objecto amado não se limita às
zonas genitais, mas estende-sea todo o corpo. Todos os

órgãosdo corpo, para além da sua função normal, podem desempenhar

um papel
52

sexual <.erógeno» (p. 288).

Mas êsse papel não é dominante, quer dizer, o homem
normal não se detém exclusivamentenesta ou naquela
parte do corpo do ser amado, recusando o contacto com
os órgãos.genitais. Ora, os pervervos, não só substituem
a vagina pela boca ou pelo ânus, mas também por uma
outra parte do corpo (os pés, os seios, os cabelos), ou até

poro'um objecto, inanimado que toca de perto o ser
amadoou o seu sexo (sapatos,roupa interior). A isto
chama-se
feiticismo. Existo uma parte de feiticismo no
amor normal; é uma forma de preparaçãopara o acto
sexual. Mas há perversão quando o feitiço se desliga .da
pessoa e: se transforma por si próprio no fim sexual.
Há também perversão naqueles que se limitam aos
actos preliminares
à união sexual (carícias, inspecção,

etc.). A necessidade de olhar, de tocar, torna-se perversa
quando constitui

u/ll /ím i}2depezldenfe do acto sexual e

se afasta dele; também quando essa necessidadese limita
às zonas genitais. É o caso dos voyeurs e dos eicíbícíonisfas

O sadismo é a perversão daqueles que só podem sentir prazer se inflingirem ao parceiro toda a espéciede sofrimentos morais 'e físicos, desde a humilhação até às
lesões corporais. Pelo contrário, o masoquismo consiste

em sentir prazer em receber do ser amado humilhações
e:sofrimentos. Mas o masoquismo não é simplesmente o
contrário, ;do sadismo. Com efeito, o sádico sente por vezesvolúpia em tomar o lugar da vítima.
A própria existência das perversões prova que o campo
da sexualidade ultrapassa largamente ãs funções de procriação e a maturidade sexual. Este campo engloba o período infantil que é o único que pode exp.ligarI'anta a per-

versãoe a neurosecomo a vida sexualnormal.
As fasesiida soxüalidade infantil

Todaselas são marcadospela perversão,isto é, por
uma actividade sexualnão orientada para a procriação.
A observaçãodo bebé revela que o seu principal, se
não único, interesse consiste na absorção dos alimentos.
O acto de chupar seja que objecto for dá-lhe uma satisfação beatífica. Esta sensaçãode prazer na zona bucal

constitui a primeira manifestaçãode sexualidadeper-

/

A y/OA SEXUAL

INTRODUÇÃO À PSICANÁLISE FREUD

gina. A criança não conhece esse interesse na idade da
fixação infantil que permaneceráHOSperversos.
Mas o erotismo anal não é.exclusivo. A vida sexual

versada sucçãoé, em primeiro lugar, uma fonte de prazer, um modo de satisfazer a líbido. A boca torna-se uma
zotzaexógena.«O acto que consiste em chupar o. seio
materno'torna-seo ponta; de partida de toda a vida se:
RUBI.o ideal nunca alcançado ãe toda a satisfação sexual
posterior, ideal a que a ühaginaçãoaspira em mopeptos

da criança comporta uma série de tendênciasparciais
e iudependenteiumas das outras, que utilizam como
fonte de prazer tanto algumaspartes do corpo como
abjectos exteriores. Desde. cedo,: a criança descobre o

tíe grande necessidade e de grande: -privação» (p. 294). O

sela materno, primeiro objecto de sucção .que constitui
«o primeiro objecto do instinto .sexual», determina em

grande parte todas as escolhas posteriores de objectos
sexuais,'incluindo as perversões.Êle tem inúmeros substitutos na imaginação'humana.Mas como o seio da mãe
nem sempre está'disponível, a criança substitui-o por
certas partes do seu corpo: e chucha no dçdol De um
modo geral, a criança experimenta uma .satisfação sexual
coH o seu próprio -corpo, a sua atitude é auto-erófíca.

'R

F

prazer que pode sentir com os seus órgãos sexuais.Este
ODanismo
inicialmente inconscienteda primeira infância
mantém-se,graças ao aula-aforismo, muitas vezesmuito
além da puberdade.
O complexo d& cmtraçãó

ao dés-

Uma outra característicada sexualidadeinfantil que
desempenhaum papel importante na formação das neu-

lidade infantil prende-secom as necessidades,-nãojá .de

as diferenças que separamos sexoslAtribuindo, sobre-

Esta

é a Jráse'ora/;

eÚende-se do nascimento

mame.
O segundo momento do desenvolvimento da sexuaalimentação, Mas de evacuação (micçãole defecação)...

«A eliminação da urina e das fezesé para o bebé uma
fonte de prazer e logo ele se esforça por organizar estas
acçõesde modo a qtÚ elas Ihe proporcionem o máximo de
prazer, graças
prazer,
graças a excitaçoes
excitações corresponaentes
correspondentes aas
das zonas
zonas
erógenas das mucosas» (p. 294). Ora, a sociedade, a mãe,

proíbem a criança de se desembaraçardas suas excreções como e quando ela quer. A. criança aprende a controlar as suas excreções e a produza-las no momento em
que os pais ]ho pedem. Descobre ;assim o seu próprio
poder. Pode ou não recompensar a mãe. E este «presente»

que ela Ihe dará será identificado .mais tarde, quando a
éliucaçãoIhe tiver retirado o orgulho e alegria que atribui a essasfunções,com todos os outros presentesque
ela poderá dar, tom o dinheiro, que poderá dar ou guardar para si. Algunstraços do carácter como a teimosia,
a avareza, o espírito

de ordem, provêm

dessa (?rggDjz4-

çãe..aBa!. Nesta' mesma época (Catre l e 3 anos), dçseiívoive-se uma tendência para a dominação F. crueldade.
É a fase sádico-anal. É por uma fixação da líbido a esta

fase que se explicam as perversõessádicas e.masoquistas ni3 adulto, 'bem .'como o interesse libidinal exclusivo
pelo orifício anal no acto sexual,em detrimento da va-

roses é a curiosidade sexual, que é muito viva, por vezes
artes dos 3 anos. Durante muito tempo, a criança ignora
tudo a rapazinho, os órgãos sexuais masculinos êos dois
sexos. Quando descobre a ausência de pénis na menina.
pensa que só um acto de violência a pede privar de um

órgão que para si é tão importante. Lembra-sede algumas ameaçasque Ihe foram dirigidas quando prestava
demasiada atenção ao seu pequeno membro. Receia vir
«complexo de castração», que exerce uma grande influência tanto no carácter
do homem normal como no do neurótico. Por como/êxo

a sofrer o mesmo castigo. Daí o
Freud

designa

um

con/unto

de represênfações

de /ocre

valor afectivo ligado às relações interpessoaisna história
da criança. Um complexo pode estruturar todos os níveis
psicológicos, desde as emoções até aos comportamentos
organizados. Uma vez.convencido de que a mulher nunca
teve pénis, o rapazinho pode sentir por ela um desprezo,
que, por vezesé duradouro. Quanto à rapariga, inveja o
rapaz por possuir esse órgão. Por isso, ela desejaser rapaz,.. «Essedesejoenconi:ra-se
mais tarde implicado na
neurose provocada pelas frustrações que sentiu no desempenho da seu papel de mulher» (p. 297).Aliás, o clítoris
tem, para a rapariga. o papel do pénis.
A maior parte destesacontecimentospsíquicosda infância serão esquecidos em favor de um período de para-

A y/DA SEXUAL

INTRODUÇÃO À PSICANÁLISE FREUD

gem no desenvolvimento sexual, que se situa entre os ó
e os 8 anos: o período de latência. Freud pensa que a
razão deste esquecimento ou amnésia l?z/anf{/ reside no
recalcamento.

J

aliam-se na criança, bem como no inconsciente.Encontramos assim na criança a lógica do sonho.
A atitude

da rapariga

é, -com ; algumas

alterações

(afasta-se menos da ãiãe 'do que o rapaz do pai), absolu-

tamente idêntica.

O .complexo de Édipo pode tornar-se um <eomplexo
familiarp quando surgem novos irmãos ou irmãs, que parecem captar toda a atenção da mãe ou do pai. Com
efeito, a criança tem a sensaçãode ser aband(3nada,de

O complexo do Édipo

A fase que precede imediatamente o período de la-

qualquerforma, de ser relegadapara.segundoplano.
O seu ciúme:.
vai ao ponto de manifestarabertamenteo

têncieC a fase fálica, é caracterizada por um acontecimento de importância fundamental: o complexo de ÉdÍpo.
A psicanálise fala da /aie ]çáZíca
para designar o momento

desejo de que o intruso

profundo de culpabilidade. Maxi existem muitas outras
formas

manifestaremmuita ternura pelo pai. É o que Freud

chama ambíva/anciã, isto é, a coexistência de atitudes
sentimentais opostas, amigáveis e hostis (amor/ódio, ternura/antipatia) para com a mesmapessoa.Essasatitudes opostas entrariam em conflito no adulto, mas.;con-

vemos, por

exemplo,

a

.+ Sexualidade infantil, neurose e consciência moral

mãe. Muitas vezes, exprime esses sentimentos em :voz

puramente egoísta, se se ligasse a ambos os pais em
vez de a um só. Pelo contrário, o rapaz:não manifesta
os mesmos sentimentos de ternura em relação ao pai.
Preferiria antes.,elimina-lo,como se se tratasse de um
concorrente incómodo. Mas, por vezes, vemos rapazes

familiar.:.

ter tido do pai.

e amua quando o vê manifestar alguma ternura pela

poderia obter ainda mais atenções,do ponto de vista

do complexo

rapariga substituir o seu irmão mais velho pelo pai ou
substituir a irmã mais nova pela filha que gostaria de

da líbido são mais ou menos recalcados. O rapazinho está
apaixonado pela mãe e, por ciúme, detesta o pai. Deseja
possuí-la só para si, regozija-se comia ausência do pai

alta; promete à mãe que casará com ela, insiste em dormir .com ela. em assistir à sua «toilette»... «A natureza
erótica da ligação à mãe parece fora da dúvida» (p. 313).
Porquê? Porque a mãe, embora dispense o mesmo carinho à filha, não obtém reacçõessemelhantes.Por outro
lado, o argumento segundoo qual o rapaz seria levado,
não pela,.sexualidade mas por egoísmo; não basta para
explicar essa ligação tão forte. Com efeito, a criança

desapareça. Se, por acaso, esse

desejo se realiza, ou mesmo quando- nâo se realiza,..a
criança tornada adulta guarda, por vezes,um sentimento

em que se manifesta o desinteressepelas matérias fecais
e pela função anal e em que o interesse se concentra na
zona erógena que é o pénis. Nas crianças, verifica-se que
há masturbação e, nos rapazes,erecção.Mas, no complexo
de Édipo, não é o instinto sexual mas o amor que ocupa
o primeiro plano. Os' :elementos sensuais ou corporais

O complexo de Édipo e o modo como ele é recalcado
determinam a evolução sentimental e moral do homem
normal, bem como os sentimentos de culpa e os remos:
sos de uma parte dos neuróticos. <(Ocomo/exo de .Édito
pode ser considerado

como o centro 'das neuroses»

(p. 317). Nas suas escolhas amorosas da idade adulta,

o indivíduo procurará, mais ou menos,reencontrara
f

relação amorosa infantil com o pai ou com a mãe. A partir da fase de latência, o homem encontra-se confrohlado
com.a grande tarefa que consiste em desligar-se dos pais.
O filho deve;fdesligai-se da mãe, para fazer incidia os
seus desejos sobro objectos exteúores e reconciliar-se
com o pai. Os neuróticos são aqueles que falham nesta

missão:o filho que não consegue
referir a sualíbido a

um objecto sexual exterior, qué não conseguelibertar-se
da autoridade do pai; a rapariga ligada à fàmílía durante
demasiado tempos

Mas, do complexode Édipo vai resultarainda um

facto ...de extrema

importância:

a criação

do

ea ; deaZ

(a que Freud chamara super-eu..depois 'de 1920), isto é,
57

INTRODUÇÃO À PSICANÁLISE FREUD

4 y/D4 SEXUAL

a consciência mora/. Para além do eu red, existe eH cada
um de nós um ezl {deaZ.(p. 405) que julga e impõe obrigações. :Ora, para Freud, esse êu ideal só é possível eM

liga-se ao auto-erotismo próprio da sua sexualidade. Para
Fieud, o narcisismo é anterior ao.amor objectal: «O;;nar-

consequência'

do recalcamento

do complexo

cisismoconstitui o estadogeral:e primitivo , do qual o

amor dos objectos só saiu posteriormente, sem que com
a sua aparição, tenha proçbcadoQ desaparecimento
-do

de 'Edipo.

l.ibertãndo-se dessecomplexo, a criança identifica-se cóm
os pais, integra-os em si própria ou melhor, integra em

si própria as leis morais que os.pais anteriormentea

obrigaram

a seguir. : Primitivamente

.amoral,

a criança

capta primeiro a moralidade; as normas da conduta, como
ligadas às recompensas e aos castigos..que, para : ela,

equivalema UHa dádiva ou a uma recusade afecta.Primeiro, receia os castigos, mais tarde, a sua consciência
moral ou o eu ideal terá meda da falta. O processoque
permite

a passagem à moralidade

está, por'tanto,

jigEido

à idetz/í/{caçãocom os pais, isto é, a imitação dos pais.

a identificaçãodo eu com o eu dos pais. É, para a

Criança,uma maneira de possuir idealmenteo progenitor
que deseja; substitui pela identificação o desejo de um&

posse física considerada impossível ou moralmente Con-

denável. Noutros termos, a criança ínferloríza a lei dos
pais

Dei,um modo geral, a .vida sexual da criança está
cheia de decepçõese frustações:a sua ligação à mãe
ou ao pai está sempre comprometida pelo ciúme, quer
em relação a um deles, quer em relação a um irmão
ou a uma irmã; o medo da castração ou dos castigos
pesa sobre os actos de masturbação; ao crescer, ela

descobre:!quehá outros ídolos para além dos pais. o
professor, o amigo.

.{

narcisismo» (p. 393). O narcisismo não desaparece.nunca,
permanece em segundo plano, ou é recalcado, no.homem
formal. A nossa'líbido 'é semelhante a essas células de
protoplasma,:: que podem produzir pequenos .prolongamentos, ou pseudópodes,mas que podem também retrairse. A própria líbido normal pode regressar ao eu: C)sono
representa esse::estádio, em que :a líbido se desliga dos

objectos e regressa ao eu. Segundo Freud, aquele que
dorme reproduz assim .o estado perfeitamente feliz de
narcisismo absoluto que era o n(liso na vida! intra-utQ-

rlna
O narcisismo desempenhafrequentemente um. papel
na escolha do objecto amado.;0 amor objectal tem, muitas vezes,.umacomponente narcísica: o sujeito ama então
no.,outro um eu que se assemelhaao seu. Ou então, o
indivíduo escolhe como object-o da SUR líbido pessoas
que são indispensáveis à satisfação de algumas das suas
necessidades vitais(p. 403).

Freud estabelecetambém uma relação entre narci-

sismo e homossexualidade, ,narcisismo e paranóia, es-

tando as duas por vezesligadas. Os indivíduos atingidos
pela demênciaparanóica,ou seja, por estadosCOH-oa
mania das grandezas, a mania da perseguição ou o ciúme
maníaco:transferiram para o seu próprio ezltoda a ener-

gia libidinal que retiraram dos obj'ectos.A mania da
O narcisismo

Originariamente, a líbido não está exclusivamente vi

rada para outros seres,como o pai ou a mãe.A criança
toma também o seu próprio eu como objecto de amor:
é a tendência que Freud denominou de narcisismo. O
narcisismo designa um deslocamento da líbido para o
próprio corpo e a própria pessoado sujeito, ao contrária
da líbido de objecto,ou /íbído oblíecft,a..Quando,pela
regressão,o narcisismo reapareceno adulto e este substitui o objecto sexual exterior pelo seu próprio corpo,
trata-se de' uma perversão. Na criança, essa tendência

perseguição, onde na maior parte dos casos o persegwdor

é do mesmo sexo que o perseguido,é, para o sujeito,
uma maneirade se'defendercontra uma tendênciahcb
mossexual demasiado forte. Nessas pessoas, a transfor-

maçãoda ternura em ódio correspondea uma lei geral
que faz com que toda a líbido recalcada e não satisfeita

pior um derivativo se transforme em angústia(p. 401).
Finalmente, o narcisismo fornece a explicação dessa
doença psíquica que é a me/anca/{a. A tese pode parecer

paradoxal,uma vez que o melancólico,longe de estar
impregnado do seu próprio eu, se sente diminuído:.e
dirige a si mesmo toda a espéciede censuras.Mas, na

realidade, essas acusações visam outra pessoa, por exem-

INTRODUÇÃO À PSICANÁLISE FREUD

plo o objecto sexual que perdeu ou que o desiludiu.

À psicanálisepede demonstrar que«se o melancólico

retirou a sua líbido do objecto,-esseobjectoestá ins-

A y/DÁ SEXUAL

zaçõesno plano social,cultural ou artístico. Noutros termos, os fins mais elevados da humanidade derivam de

fins sexuaissublimados.De que modo renuncia o indi-

crito no ea, como que projectado nele, em consequência
de um processo a que:se 'pode dar o nome de {denfí/ilação narcísica» (p. 404).

víduo ao seu egoísmo e a unia satisfação estritamente
sexual? Freud não explica este mecanismo. Mas indica
que, uma vez que a sociedade exige a cada indivíduo o

conscienile do amor de si infantil, é, pois, considerável
na vida psíquica. As neuroses narcísicas como, por exemplo, a /zl)ocÕndz"ía(«doentesimaginários» que estão obcei:ados pêlo corpo e pelo seu estado de sande), são difíceis de curar, pois segundoo grau de concentraçãonarcísica do eu sobre si próprio, ai condições indispensáveis

do trabalhoe das necessidades
vitais, a maior parte

A importânciado nascisismo,
sobrevivência
no in-

para uma cura, noméadãmenteo diálogoe a transferência(cf. capítulo 7), são irrealizáveis. «Nas neurosesnarcísicas, a resistência é inultrapassável» (p. 400).

O estudo das neurosesvai confirmar a influência de-

cisiva da vida sexual da criança. «Quando uma neurose

se manifesta numa das fases posteriores da vida, a análise revela geralmente que ela é apenas a consequência

directa de uma neuroseinfantil que, na altura, talvez
só se tenha manifestado sob uma coima velada, em estado
de esboço» (p. 342). Freud assinala .entretanto o erro

da pedagogia,que acredita ser possível evitar as neuroses controlando e inibindo o desenvolvimento sexual
da criança.. A vigilância sexual da criança, a repressão

das suas práticas masturbatórias, por exemplo, produz
o efeito contrário;

favorece um recalcamento sexual';excessivo e deixa a criança indefesa contra o regresso em
força das pulsões na..puberdade. Efectivamente, toda a
atitude da,: sociedade e :.dos educadores em relação à
sexualidade deveria ser modificada(ver conclusão).
A BubnmsLç3O

Existe uma outra possibilidadede evoluçãodos instintos sexuais:a sabZlmação.Freud quer com isto dizer
que alguns instintos da líbido são «desviadosdos seus
fins sexuais e orientados para fins socialmente superiores e que já nada têm de sexual» (p. 13). A sublimação

substitui a procura do prazer que o acto sexualproporciona por uma procura mais realizada, que leva a realí-

sacrifício dos seusinstintos e do ieu egoísmoem favor

dos homensconseguiudesviar uma boa parte das suas
forças instintivas sexuaise pâ-lasao serviço da sua actividade profissional.

VI

O SIGNIFICADO DAS NEUROSES
A evolução da, líbido e das neurose

Para Freud, a efio/agia das neuroses (isto é, a teoria
das suas causas)resume-sea dois casos.Ou os acontecimentos sexuais da infância provocaram um trauma-

tismo suficientepara travar a evoluçãonormal da líbido
e provocarmais tarde uma neurose;ou a origem da
neurose deve ser procurada em conflitos posteãores à
infância. Mas, neste segundo caso, a análise revela uma
regressão

a uma

situação

infantil.

São, pois,

estes os

dois tipos de perigos extremos que ameaçam a evolução

da líbido: por um lado, a paragemdo desenvolvimento
ou
ainda a «fixação» e, por outro, a «regressão». t/m neu-

rótico é am indivíduo cujo psiqaism(i inconscientepermaneceu ou regressou à época em que os seus desejos

le criança eram satisteitbs e que 'procura reprodudr
pot actossintomáticosde valor simbólico essasatisfação
ín/anfí/. Os neuróticos cuja líbido sofreu uma fi;ação
são aquelescuja sexualidadenunca se tornou adulta; por
exemplo, aqueles que não são capazes de referir a sua
líbido a um objecto sexual exterior, diferente da mãe ou

do.pai(fixação na fase edipiana).Aquelescuja líbido

sofreu uma regressão são aqueles cujos desejos, tendo
encontrado obstáculos, regreiaram a iituaçõei de satisfação infantil (regresso ao narcisismo, ao .auto-erotismo,
à situação edipiana). Assim, toda a neurose é uma doença

da líbido, uma ruptura de equilíbrio entre a líbido e o
eu. «Uma pessoa só se torna neurótica quando o seu

O SIGNIFICADO DAS NEUl\ASES

INTRODUÇÃO À PSICANÁLISE FREUD
'1

eu perdeu a capacidadede reprimir a líbido de uma
forma ou de outra» (p. 364). A 'neurose é, pois, também
um fracasso do recalcamento.

tira retrospectivamente: uma aparência de necessidade.

Mas, para o homem normal, não existe nenhuma necessidade prévia quanto à natureza do objecto escolhido.
Ora, o efeito da fixação é reduzir a plasticidade da líbido, limitar

Regressão e recalcamento

extremamente a esclolha. A líbido, estando

fixada a objectos da infância (a mãe, por exemplo),já

}nenio é am processoda vida psíquicanormal! que consiste em manter(sobretudo at;avós da censura) algumas

O recaZca-

não consegue satisfazer-se com nenhum objecto real.
É esta limitação extrema dos objectos capazesde satisfazer a líbido que provoca a príúação profunda, a «privação interna». Se, efectivamente,a privação existe em
todos os casos de neurose, como sublinha Freud, só uma

representações no inconsciente e em preservar deste
mêdo a consciência do eu. Pelo contrário, a re